Uns dias num Paraíso Fiscal

[dropcap size=”500%”]A[/dropcap]pós a revelação dos “Panama Papers”, muito foi o mediatismo dos países considerados paraísos fiscais na comunicação social mundial e, mais especificamente, em Portugal.


Os baixos impostos e o difícil acesso das autoridades a dados potencialmente confidenciais, tornam estas nações um covil para as fortunas de grandes vilões do mundo. A Suíça é considerada um desses paraísos, não sendo atualmente o maior dos flagelos devido a pressões da UE e dos Estados Unidos. No entanto, não é meu objetivo focar-me nesta temática. Com certeza a Suíça tem muitos pontos a melhorar, mas tendo já passado alguns dias do meu intercâmbio neste país, vejo que Portugal pode aprender com o melhor que a Suíça tem para oferecer.

É difícil comparar um país saído de uma crise com aquele que representa a economia mais competitiva do mundo (World Economic Forum), mas tenho convicção que o meu país pode ser o melhor, portanto selecionei dois factos que observei até agora e que penso constituírem mudanças de paradigma ao invés de reformas estruturais para o nosso país.

1. Uma vaca ao virar da esquina.A Suíça é dos países que mais paga em subsídios à criação de bovinos e produção de leite. Não admira, portanto, a manutenção desta imagem tão típica. Acima de tudo, admira-me a inexistência de baldios. Esta é uma visão que sempre tive para Portugal e que aqui encontrei. Cada pedaço de terra disponível e sem construção é de um verde vivo e, por vezes, tem umas vacas, mas nunca terra batida ou mato. No mínimo usam os pequenos terrenos para pastagens. Até agora não descobri nenhuma exceção.
Portugal poderia parecer muito maior se déssemos uso aos baldios que temos.

2. Um PDF para o menino e para a menina.

Agora foco-me na experiência que estou a ter na universidade que me acolheu, mas que acredito poder ser extrapolada outros serviços administrativos. É impressionante a quantidade de documentos que recebi com instruções para todas as secções da faculdade, utilização da residência, processo de registo na cidade e muitos outros procedimentos. O importante a reter é que nunca senti a minha vida tão facilitada. Os processos e regras são completamente diferentes e nem a mesma língua falamos, mas graças à quantidade de PDF’s de fácil leitura e bastante concisos, desde que comecei o processo de intercambio em maio passado, só tive necessidade de enviar 3 emails com questões e fiz tudo em uma semana. As próprias plataformas de inscrição são muito intuitivas e algumas até funcionam por listas de tarefas. Ajuda muito a fazer tudo o que é necessário.

Portugal poderia parecer muito menos burocrático se a maioria dos serviços apresentassem as tarefas a realizar e instruções de forma mais direta e atentasse nas experiências anteriores para explicitar os processos mais confusos.

Este não é um texto para lisonjear outro país e criticar aquele no qual cresci. Sem dúvida que os dias aqui também me mostraram que não há nada melhor do que um país com bom clima, muitas praias e preços acessíveis. No entanto, um país com tão boas condições tem de saber aproveitá-las e, neste texto, não apresento as tão aclamadas, necessárias e ao mesmo tempo esquecidas reformas estruturais; refiro ajustes metodológicos que nos podem dar vantagens no futuro.


Há muito sonho com um Portugal que cumpre estes 2 pontos e agora vejo-os materializados e a produzir resultados.
Portugal pode parecer um país de sonhadores, mas, até ao momento, Portugal já percorreu um longo caminho para o sucesso. Ainda estamos longe. Eu quero fazer mais pelo meu país, e tu?

“Falta cumprir-se Portugal”, Fernando Pessoa

João Matias

 

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