Um Presidente barata-tonta

[dropcap size=”500%”]D[/dropcap]evo dizer que concordo com Marcelo Rebelo de Sousa quando defende um único mandato presidencial de 6 ou 7 anos. Desde logo porque sempre poupávamos 3 ou 4 a esta Presidência hiperativa e quase esquizofrénica, mas também porque (entre outros motivos) não acho que o Presidente da República deva estar sujeito a campanhas eleitorais. Não me parece apropriado que o representante máximo do Estado esteja sujeito ao tipo de ataques próprios das campanhas eleitorais. Claro está que também não me parece apropriado classificar um Presidente de “barata-tonta” nem uma Presidência de “esquizofrénica”.

Mas, de facto, Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente diferente e deve ser tratado como tal. A minha conceção de Presidente da República que deve ser tratado como representante máximo do Estado não se coaduna com a Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa.

Um Presidente da República não tem sede de aparecer, não se expõe ao mediatismo próprio das revistas sociais. Um Presidente da República mantém a equidistância partidária e assume-se como instituição por si próprio, não se confunde com o Governo nem toma partido. Um Presidente da República não comenta publicamente todos os temas, digam respeito a quem disserem. Um Presidente da República mantém, discretamente, o funcionamento das instituições, não o comenta nem o gere na praça pública.

Que credibilidade tem um Presidente da República que se confunde com o Primeiro-Ministro? Que legitimidade terá o Presidente da República para gerir uma crise política quando a geringonça se desengonçar? Quem vai representar o Estado, com a equidistância necessária, quando for necessário pedir ajuda externa? Irá Marcelo Rebelo de Sousa ser o Teixeira dos Santos de António Costa na comunicação ao país?

Claro que é fácil ser popular, aparecer numas fotos com o povo, distribuir uns abraços e espalhar o seu otimismo irritante. Claro que se torna mais fácil quando o Governo depende do show-off e da aura que se criou à volta do seu verdadeiro chefe. Mas e quando tivermos um Governo a sério? Vamos continuar com um Presidente que se tenta substituir ao Primeiro-Ministro e imiscuir-se nos assuntos da governação? Que Governo sério tolera isto?

Demasiadas questões, eu sei. Continuemos a olhar para a Presidência perigosa do populista Donald Trump, agradecendo por estarmos a livre do populismo e entregues ao sério Marcel Rebelo de Sousa.

 Nuno Carrasqueira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *