Um ano da Casa Varela

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or detrás da discussão sobre os diversos conceitos de cultura, estão sempre projetos de divulgação de conhecimento, numa perspetiva mais liberal, ou de implementação e sedimentação das ideologias e dos poderes públicos (e até pessoais), numa perspetiva mais radical ou extremista. No primeiro caso, a transmissão de conhecimento, a formação, a informação e as respetivas atividades em que se manifestam são objetivos que servem de base à realização intelectual e profissional da pessoa. No segundo caso, servem para delimitar a forma de pensar e de agir dos membros da base da comunidade, enquanto politicamente organizada, ou para determinados grupos políticos ou religiosos proselitistas, pretendentes ao poder total, corroerem os fundamentos do poder estabelecido e reivindicarem poder e meios económicos para sustentação das atividades das respetivas clientelas, utilizando a discussão sobre cultura como uma panaceia para todos os atrasos sociais e económicos…

Próximo desta última posição, está a classe dirigente da esquerda portuguesa, burguesa, despesista e auto denominada cultural, para quem a cultura é principalmente um meio de entretenimento e de obter rendimentos, através de generosos subsídios pagos pelo estado com a correspondente permanente obrigação dos contribuintes produtivos, ou seja, com uma conceção próxima do parasitismo.

Voltando ao nosso concelho, parece-nos que o Município não pode adquirir e recuperar ou reconstruir vários edifícios históricos, sem antes ter prevista uma utilização necessária à comunidade que justifique o preço pago e os dinheiros a gastar no futuro, sempre em contraposição com o esforço dos contribuintes. Entendendo que o estado deve ser reduzido ao essencial, urge perceber que o património municipal não pode engordar ininterruptamente com edifícios, dos quais deixa de obter a receita de IMI e IMT, e que não pode engordar indefinidamente com atividades e quadros de pessoal que esgotam os contribuintes.

Na cidade de Pombal (e arredores), temos diversos edifícios destinados à cultura, alguns com a mesma oferta cultural: Biblioteca Municipal (e respetivo auditório), Cineteatro (com auditório, mini auditório e café concerto), Centro cultural (incluindo o Celeiro do Marquês e antigo espaço internet, este fechado), Arquivo Municipal, Castelo de Pombal, Pavilhão da Caldeira, Pavilhão das Atividades Económicas, Expocentro…

Recuperada a Casa Varela e pretendendo-se ali estabelecer um conceito importado de Óbidos, foram convidados vários “artistas” para proporem soluções sobre o destino e utilização cultural a dar ao local, legitimando socialmente o destino já previamente pensado. Tendo sido convidados os potenciais beneficiários das despesas culturais do local para a reflexão, não foram convidados aqueles que as têm de pagar, os contribuintes produtivos.

Iniciadas as atividades “culturais” de entretenimento, que perduraram durante cerca de 2 meses, a despesa surgiu bem visível, tendo somado, só durante as últimas festas do bodo, cerca de €18.000,00, o que foi considerado justificado para alguns e desperdício para outros. Porém, o bom senso fez parar a despesa e, consequentemente, a atividade, até porque alguns dos “artistas” entraram publicamente em conflito na disputa de um quinhão do “bolo cultural”.

Constando que existe uma proposta para utilização do edifício para “hostel” e para “espaço coworking”, vamos aguardar sobre a divulgação do respetivo projeto. Quando a despesa não para de aumentar, a melhor solução para alguns dos edifícios, poderá ser a venda ou o arrendamento a particulares para o exercício das suas atividades.

José Gomes Fernandes

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