Sócrates, as suas apaixonadas e o cupido Costa

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istórias de amor há muitas, algumas paranóicas, outras possessivas e outras loucamente cegas. Conhecem aquelas em que a mulher (digo mulher como poderia dizer homem) sofre de violência doméstica ou teve conhecimento de um crime horrendo praticado pelo marido e, em ambas as hipóteses, até o denuncia, censura e incrimina em todos os círculos sociais, mas lá no fundo continua cegamente apaixonada por aquele homem? Esta é a história de José Sócrates e os militantes do PS nos últimos anos.

Desde os últimos tempos de José Sócrates no governo que elogiar a sua governação ou elogiar a sua pessoa eram atitudes censuradas socialmente, ninguém queria dar o corpo às balas pelos governos que nos fizeram bater no fundo. Até os socialistas, sim os simpatizantes e militantes do Partido Socialista, à excepção de um ou dois corajosos, queriam apagar esses anos do histórico do PS em Portugal. Mas, se analisássemos com atenção e alguma perspicácia perceberíamos que essa esmagadora maioria de socialistas que, temendo aquela que era a opinião geral da sociedade, criticavam a governação socrática, lá no fundo tinham um brilho no olhar quando falavam do mentor Sócrates. E o tempo tudo cura, até as feridas de amor. E, pelas mãos do António Cupido Costa, essas apaixonadas (não digo virgens, porque já tinham sido desvirginadas por Mário Soares nos anos 80) voltaram agora, depois de três anos a chorar às escondidas, a estar à vontade para demonstrar publicamente o seu amor e afecto ao seu deus José Sócrates (pode ser deus grego, não pela sua fisionomia, mas sim pelo empenho que demonstrou ao querer colocar-nos à imagem da Grécia contemporânea).

Agora sem figuras de estilo à mistura, é assustador, perigoso e, acima de tudo, triste perceber que à custa da guerra interna do PS, se revelou a esmagadora maioria de socialistas (que apoiam ferozmente António Costa) que se revêem nas políticas de José Sócrates, e que vêm em Costa o novo timoneiro destas. Não entender que em seis anos duplicamos o valor de dívida pública contraída em quarenta anos, que esbanjamos dinheiro na Parque Escolar, nas inúmeras PPP’s desnecessárias e ruinosas, nas grandes e inúteis obras públicas, que irresponsavelmente aumentamos a função pública em ano de eleições, alargamos prestações sociais sem critério, que enterramos recursos num programa de qualificação e certificação de competências para “Bruxelas ver”, e tantos outros exemplos que todos conhecemos… É cegueira! É óbvio que nem tudo foi mau, o Simplex trouxe mais valias, a reforma da justiça não foi das piores, nem a aposta em energias renováveis foi descabida… Mas mal de nós, portugueses, se em seis anos, depois de destruídas as finanças do país, não houvesse algo de bom a tirar do que foi feito. Sendo que importa analisar o “bolo” no global e, após essa avaliação, percebemos que nada justificou os erros, a má gestão, a falta de respeito pelos portugueses, a hipoteca das gerações futuras, a quase extrema-unção dada ao país, nada justificou, nada!

Ver que dezenas de milhares de portugueses rejubilam hoje por verem que António Costa poderá voltar a fazer renascer as políticas prosseguidas por Sócrates (do qual chegou a ser braço direito), deixa-me desiludido com este povo, deixa-me triste por concluir que nada perceberam do que se passou e, deixa-me muito, muitíssimo, preocupado com o meu futuro e o futuro das novas gerações.

*Publicado também no blog dextram.blogs.sapo.pt

João Santos

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