Socialismo: uma ideologia de bons rapazes

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elas minhas opiniões habituais sobre o socialismo, pode parecer por vezes que acho que os socialistas são pessoas mal-intencionadas, que querem prejudicar a sociedade. Sinto-me portanto na obrigação de desmistificar essa questão: acredito que a maioria dos socialistas são pessoas bem-intencionadas.

Acredito que quando defende que o Estado deve gerir determinadas empresas (consideradas de “interesse público”), grande parte dos socialistas pretenda que essas empresas sejam utilizadas para promover o bem comum. Acredito que esses socialistas não percebam que só com o controlo dessas empresas é que o Estado pode distribuir lugares de gestão pelos “amigos”, prática que depois esses mesmos socialistas condenam.

Acredito que quando defende que o Estado deve legislar sobre salário mínimo, garantias laborais, etc., grande parte dos socialistas procure garantir a toda a população o máximo de bem-estar possível, diminuindo a pobreza e as desigualdades sociais. Acredito que esses socialistas não percebam que essas leis afastam muita gente do mercado de trabalho e, por conseguinte, aumentam as desigualdades sociais e a pobreza.

Acredito que quando defende os grandes investimentos públicos, grande parte dos socialistas queira promover o crescimento da economia, o emprego e a realização de obras úteis à população. Acredito que esses socialistas não percebam que cada euro gasto pelo Estado é retirado à população. Acredito que não percebam que se se mantivesse na economia, esse euro valeria exactamente o mesmo, tendo o mesmo potencial para gerar riqueza e criar emprego (em verdade, sabemos que criaria mais emprego e mais crescimento, mas deixemos de lado essa discussão) e além disso as pessoas utilizará-lo-ião certamente de forma mais eficiente na satisfação das suas necessidades.

Acredito que quando defende a distribuição de rendimentos, grande parte dos socialistas pretenda mais igualdade social e prosperidade para todos. Acredito que esses socialistas não percebam que assim retiram os estímulos à produtividade e à inovação, gerando para todos uma pobreza muito maior do que aquela que existe num modelo de menor distribuição de rendimentos.

Acredito que quando defende que se taxe umas indústrias e se subsidie outras, grande parte dos socialistas o faça na crença que assim se conseguirá uma maior eficiência económica. Acredito que esses socialistas não percebam que é impossível ao Estado gerir de forma mais eficiente uma economia do que o faria o conjunto de todos os agentes económicos, ainda que de forma involuntária. Acredito também que não percebam que esta política de beneficiação de algumas indústrias deixa o Estado mais susceptível à pressão de lobbies sectoriais.

Acredito que quando defende a centralização das decisões, grande parte dos socialistas queira manter o poder livre dos compadrios geralmente atribuídos ao poder autárquico. Acredito que não percebam que o poder centralizado é mais facilmente pressionado (é mais fácil fazer lobby só em Lisboa do que em 308 Municípios) e que é menos fiscalizado (é impossível alguém de Vila Real escrutinar com a mesma facilidade um qualquer assessor do Governo do que fiscaliza o seu próprio Presidente de Câmara). Acredito que não percebam que é impossível ao poder centralizado ter com todas as regiões a mesma sensibilidade que as suas próprias autarquias teriam.

Acredito que quando defende a reestruturação da dívida pública, grande parte dos socialistas esteja convicto que assim o país voltaria a ser independente e poderia voltar a gastar como antes. Acredito que não percebam que enquanto tivermos défice precisaremos de quem nos empreste dinheiro e que ninguém empresta dinheiro a quem não honra os seus compromissos.

Por acreditar em tudo isto, acredito mesmo que a maioria dos socialistas são pessoas bem-intencionadas. Digo “a maioria” ou “grande parte” porque esta crença diminui à medida que sobem na hierarquia. Tenho muitas dificuldades em acreditar que os líderes socialistas continuem a acreditar na bondade do socialismo. No fundo, tal como nas seitas religiosas, vemos pessoas a defender e a fazer coisas que as prejudicam (e aos outros) por acreditarem que esse é o melhor caminho para si e para a Humanidade. Muitas vezes os líderes dessas seitas aproveitam-se dessas crenças cegas para se beneficiarem a si próprios. Acredito que o mesmo se passa no socialismo.

Nuno Carrasqueira

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