Ser pelo socialismo mas contra as suas consequências

[dropcap size=”500%”]E[/dropcap]

m 2010 foi lançado por personalidades distintas da esquerda nacional o livro “Os Donos de Portugal”, que abordava as relações entre empresas e Estado num clima de promiscuidade. No último mês, a aplicação Um Ecossistema Político-Empresarial volta a demonstrar esta mesma realidade e também ela fez sucesso junto da esquerda.

Importa então verificar se é assim tão estranho haver políticos nas empresas.

Se os políticos são eleitos por todos nós para gerir o país, admitimos que são bons gestores, certo? Então será assim tão estranho que também giram empresas?

Além disso, os políticos pela visibilidade pública (boa ou má) que têm, dão visibilidade às empresas, certo? Então será assim tão estranho que elas os queiram lá?

Os políticos são, à partida, pessoas com uma boa rede de contactos, certo? Então será assim tão estranho que as empresas aproveitem essa mais-valia?

Até aqui, parece que está tudo bem e que as críticas da nossa esquerda são despropositadas. Mas não são. É óbvio que os políticos têm poder para decidir sobre áreas nas quais trabalham, pelo que podem beneficiar-se. É por reconhecer isso que a Assembleia da República aprovou já leis para limitar a passagem de políticos do Governo para empresas da área que tutelavam.

Estranho mesmo é que seja a esquerda a ficar chocada com isto e a criticar que isto aconteça. A mesma esquerda que defende uma forte intervenção e poder do Estado. Poder esse que permite que haja beneficiação de determinadas empresas. Quanto menos poder o Estado tiver, menos pode beneficiar quem quer que seja. Quanto menos poder o Estado tiver, mais propício à meritocracia é o clima.

Portanto, senhores da esquerda, decidam-se. Querer socialismo mas rejeitar as suas consequências não é possível.

Nuno Carrasqueira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *