Se “a maior riqueza é a Saúde”, Portugal é pobre e desprevenido

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da população tem pré-obesidade e 14% obesidade. São mais de cinco milhões de portugueses que sofrem desta doença. Se está acompanhado a ler este artigo, olhe para o seu lado e descubra se é você ou a sua companhia que tem uns quilinhos a mais…

Na verdade, a preocupação acerca da obesidade vai para além da estética corporal e do excesso. É como que uma “bola de neve”: cada uma das pessoas que sofre esta doença tem habitualmente outros factores de risco associados à potencialidade de ocorrência de eventos cardiovasculares. Segundo o Instituto Nacional de Saúde dr. Ricardo Jorge, cerca de 55% da população das regiões Norte, Centro e Lisboa tem dois ou mais factores de risco cardiovasculares como a diabetes, a hipertensão, o colesterol elevado, o tabagismo e o excesso de peso/obesidade, não sendo considerado nesta percentagem hábitos de vida como a dieta ou o sedentarismo.

A estatística portuguesa diz que, na generalidade, a obesidade é maior em pessoas de menor nível sociocultural e socioeconómico, porque recorrem a alimentos mais baratos, que acabam por ser menos saudáveis. Por outro lado, o desemprego poderia levar a um aumento do desempenho da actividade física, mas, na realidade, isso não acontece, pois as pessoas ficam mais deprimidas, refugiam-se em casa e não têm hábitos saudáveis.

É também preocupante que a faixa etária mais jovem, dos 18 aos 34 anos, aquela onde existe maior nível sociocultural e mais elevadas qualificações académicas e profissionais, seja a que mais descura a prevenção. Neste sector, ninguém está muito preocupado com a saúde, pese embora 20% dos jovens adultos apresentarem pelo menos dois factores de risco, ou seja, maior probabilidade de ocorrência de um episódio cardiovascular. Verifica-se que esta faixa etária não considera a saúde como uma prioridade, o que nos leva a crer que os jovens não apostam na prevenção.

É precisamente no âmbito da prevenção que podem e devem ser tomadas medidas. É essencial que o serviço nacional de saúde faça um levantamento das fases que precedem à obesidade e, caso os utentes tenham uma situação de pré-obesidade, sejam aconselhados nas modificações dos seus estilos de vida. Essa alteração estará directamente associada à diminuição da presença de factores de risco cardiovasculares.

A questão da prevenção passa muito pelas crianças. O nosso sistema de educação, em sintonia com os jovens pais (aqueles que acima foram referenciados como potenciais despreocupados com a prevenção da Saúde), devem apelar a que as crianças iniciem desde cedo a sua actividade física, como medida ao combate do sedentarismo e da obesidade, e até para conseguirem um maior rendimento académico. Estas medidas têm necessariamente de ser acompanhadas de uma alimentação mais rigorosa e saudável.

É indispensável promover a actividade física em todas as faixas etárias, desde a motricidade infantil (a partir do ensino pré-primário) até à gerontomotricidade (através de instituições, lares e programas municipais). Isto, se quisermos poupar dinheiro a médio prazo nas doenças associadas à obesidade e à doença cardiovascular…

Estamos perante dados que caracterizam uma realidade cinzenta. Não digo negra, porque tenho noção que, infelizmente, o panorama pode piorar. E será difícil remediar. A curto prazo é fulcral desenhar estratégias de promoção da saúde e hábitos de vida saudáveis, transversais a toda a comunidade. Mas mais importante, é termos consciência desta realidade; a mudança é independente, está presente em cada um de nós. Antes que seja tarde de mais.

“O que mais me surpreende na humanidade são os homens. Porque perdem a saúde para juntar dinheiro. Depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.” Dalai Lama

(Este texto não foi, propositadamente, escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico)

Celso Casinha

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