Road to Nowhere

[dropcap size=”500%”]A[/dropcap] eleição de Donald Trump fez-me recordar um vídeo promocional, para mim absolutamente genial, da Sic Notícias na sua rúbrica Momentos *, no qual desfilavam as figuras proeminentes da política internacional, “apanhadas” em situações caricatas, tendo como banda sonora o tema Road to Nowhere dos Talking Heads. A mensagem é óbvia, e provavelmente ganhou um significado ainda maior para os tempos que se avizinham. Contudo, permitam-me reflectir um pouco sobre os órgãos de comunicação social.


Como exemplificado, os media tem hoje capacidade e meios à disposição para nos proporcionar criações bem conseguidas, assertivas e essencialmente realizadas de uma forma muito profissional. Por outro lado, a sua principal missão tem sido, na minha opinião, muito desleixada e em alguns casos mesmo completamente abandonada. O jornalista Miguel Esteves Cardoso no dia seguinte à eleição de Trump escreveu um artigo em que analisou os media. Duro, mas muito sóbrio, o artigo espelha exactamente o que há muito vimos observando. No caso, a esmagadora maioria dos media internacionais a vitória de Trump como apenas uma remota hipótese, em que seria necessária uma conjugação de factores quase impossíveis. Especialistas e alguns menos especialistas corroboraram. Pelo meio, e como afirmou MES, confundiu-se o desejo de não ver Trump presidente dos E.U.A. com a função de informar.

O choque com a realidade foi duro. Bastava ver as caras dos jornalistas e analistas presentes na emissão especial da CBS. À medida que iam chegando os resultados a nuvem ia aumentando, até que se confirmou a impossibilidade assegurada.
Facilmente podemos transportar esta realidade para os assuntos nacionais. Durante os anos de governação sobre o protectorado os media nacionais fizeram ecoar o geral descontentamento da população com os cortes e austeridade impostos. Os índices de popularidade baixíssimos do governo, as constantes ameaças de iminente quebra da coligação, a multiplicação de protestos e manifestações, etc aconteceram de facto e eram merecedoras de notícia. Contudo, estes provinham essencialmente daquela franja de população a quem normalmente atribuímos o maior peso eleitoral, funcionários públicos e pensionistas, e cuja voz se faz ouvir mais facilmente. O resultado eleitoral das legislativas de 2015 demonstrou que uma importante percentagem de população foi silenciosa (ou silenciada) durante aqueles 4 anos, não tendo os media encontrado espaço para as pessoas que a constituíam.

Assistimos hoje novamente a uma manifestação deste desfasamento entre a realidade e o esmagadoramente noticiado. Na ausência de um contraditório, lá vão existindo alguns mais atentos, e que se esforçam por fazer passar o outro lado, como José Manuel Fernandes, que disseca os recentes dados “positivos” neste artigo.

Com a importante massa que vota, e que se faz ouvir, controlada, Costa segue a sua campanha eleitoral. Abandonou o seu modelo milagroso assente no consumo interno e os números “positivos” estão a milhas do prometido. Na sua hábil construção diária de grandes resultados potenciados por factos que desconhecemos (e que se fazem por esconder) mas que certamente iremos lamentar mais tarde, lá vamos andando, de vitória em vitória até a derrota final, a nossa derrota final.

*Infelizmente não o consegui encontrar pelos youtubes, contudo deixo aqui link para dois vídeos idênticos e igualmente muito bem feitos: https://www.youtube.com/watch?v=amJi-YHnbLE e https://www.youtube.com/watch?v=Y-38bXgPnaM.

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