quinta-feira, 17 de abril de 2014 A birra da 3ª idade: a dos capitães

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e o termo “birra” costuma ser usado para transmitir a teimosia ou a embirração das crianças em relação a algo, na grande maioria das vezes por mero desporto e sem motivos plausíveis, o que é normal nos mais novos, parece que nos últimos dias foi diagnosticada a birra também na 3ª idade. Tendo em conta que os casos diagnosticados se referem todos aos intitulados capitães de Abril, esta nova variante da birra passou a ser designada, como “a birra dos capitães”.

E trata-se disso mesmo de uma birra. Uma birra e uma confusão. Uma confusão dos que se dizem pais da liberdade e mostram agora não entender a plenitude do termo liberdade e os efeitos que decorrem dessa mesma liberdade, conquistada por eles. Com a liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974, que veio permitir a implementação de uma democracia, os portugueses conquistaram um sistema multi-partidário, deixando para trás os tempos do partido único e entrando definitivamente num período de pluralidade democrática. Os partidos, esses, têm assento na Assembleia da República, órgão que é o legítimo representante de todos os portugueses.

Faz sentido que numa democracia, com vários partidos, alguns dos quais com assento na Assembleia da República, para onde são eleitos por sufrágio directo e universal os deputados, sejam esses grupos partidários os únicos, legitimados pelo poder do voto, a intervir em sessões solenes de evocação de dias marcantes da história nacional. Não colocando em causa os valores e a missão preconizada pela Associação 25 de Abril, a mesma estatutariamente não passa de mais uma pessoa colectiva sem fins lucrativos, entre centenas de milhares existentes em Portugal.

Se a Associação 25 de Abril se assume como “proprietária” dos valores de Abril, entendendo assim que deveria intervir nas comemorações, na hipótese de se abrir esse precedente, não faltaria quem por ocasião do Dia de Portugal ou do 5 de Outubro se assumisse com interveniente natural e imprescindível em tais comemorações. Pouco importa se no passado os capitães já intervieram nas comemorações (suponho que não, sem certezas), o que releva é que há 40 anos lutaram pela liberdade, a liberdade que trouxe a democracia, a democracia que não se faz sem partidos, e agora, quando já não lhes convém, põem em causa a legitimidade dos partidos, pondo assim em causa a legitimidade da democracia e da liberdade, que tanto apregoam. Ao não comparecerem nas comemorações em virtude do órgão representante do povo assim o ter decidido, estão a reflectir a tolerância que têm pelas opiniões e decisões contrárias à sua vontade/birra. “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço”.

*Publicado também no blog dextram.blogs.sapo.pt

João Santos

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