Primárias: ideia bestial-besta-bestial

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urante anos não houve em Portugal uma alminha que pensasse sobre o sistema político, que não falasse na importância das eleições primárias. Não havia documento sobre o tema, produzido nos partidos ou na popular “sociedade civil” que não visse nas primárias uma das pedras basilares da reforma do sistema político. Até que António José Seguro decidiu implementá-las. Aí as primárias passaram a ser a raiz de todos os males, uma jogada de quem está agarrado ao cargo (não digo que em parte não o tenham sido), uma subversão dos princípios de funcionamento dos partidos. Até que, nova reviravolta, António Costa ganhou a eleições primárias do PS e a ideia voltou a ser genial, porque dá uma enorme legitimidade ao vencedor, que no caso de António Costa nem precisava, porque como sabemos a sua legitimidade vem directamente da bênção divina.

Quem tem afinal razão? Provavelmente todos e ninguém. A primeira conclusão a tirar deste exemplo é a de que não existem, para nada, remédios santos e sem efeitos secundários.

Quanto às primárias, tem razão quem durante anos falou da sua importância para a reforma do sistema. Mas também tem razão quem as critica, porque obviamente têm aspectos negativos. Se é verdade que, por princípio, permitem um maior envolvimento da sociedade civil na vida dos partidos, não é menos verdade que esse envolvimento pode não ser tão transparente e cristalino como se idealiza. As primárias permitem na realidade uma elevação exponencial do fenómeno do caciquismo. Se em eleições directas existe caciquismo dentro dos militantes, em eleições primárias esse caciquismo é extensível aos amigos, aos amigos dos amigos, aos munícipes que precisam de manter boas relações com as Câmaras Municipais e a todos interesses que possam girar à volta de pessoas ligadas aos partidos. Além disso, permitem que alguns habituais rentistas (como é o exemplo dos “agentes culturais” se façam simpatizantes dos partidos como forma de lobby e nada os impede de o fazer em vários partidos). Portanto, até aqui mostra-se que tem razão quem durante anos defendeu as primárias, mas também que recentemente as criticou.

E quem agora as elogia pela legitimidade (já se sabe que absolutamente supérflua) que dão ao Messias António Costa? Ainda que ignoremos o factor caciquismo (só um dos candidatos era Presidente de Câmara e podia mover influências com esse papel) e a existência dos tais rentistas (nem é preciso dizer quem sai beneficiado), temos de perceber quem foi o universo eleitoral destas primárias. Para já, vemos que é numericamente ridículo, quando comparado com o número de eleitores de umas eleições legislativas, pelo que é manifestamente exagerada a ideia de que António Costa já é um quase-Primeiro-Ministro. Além do factor numérico, há um outro factor. É que quem se assume como simpatizante do PS, assume à partida que esta coisa da bancarrota e dos resgates do FMI até são coisas porreiras, pá. E depois dos sacrifícios dos últimos anos, duvido que esse sentimento seja partilhado pela maioria dos portugueses.

Resumindo, três ideias fulcrais: não há ideias milagrosas; as primárias podem ser boas, mas ainda carecem de aperfeiçoamentos no modelo; as legislativas são só em 2015 e a bênção divina pode não ser suficiente para António Costa ganhar.

Nuno Carrasqueira

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