Praxem os Media, já!

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á pouco mais de um mês se algum canal de televisão se lembrasse de fazer uma reportagem sobre a secular tradição académica que é a praxe, sobre o quão lúdica e pedagógica é e sobre a riqueza das actividades que podem ser feitas no seio da praxe, seria algo fantástico. O impacto dessa reportagem seria de tal modo positivo que os Media nacionais imbuídos pela espuma da onda lá dedicavam peças jornalísticas a esta tradição tão portuguesa. O Goucha, a Júlia, a Fátima e o Malato dedicariam rubricas dos seus programas a divulgar a praxe. Seriam passadas imagens e dados exemplos de diversas formas de praxe: estudantes com a cabeça debaixo de água até resistirem, estudantes a mergulharem no esterco, estudantes a saltarem de pontos altos, e até, imaginem só, estudantes a entrarem no mar trajados num dia de inverno. Todos os nossos jornalistas, apresentadores e comentadores riam com tão engraçadas práticas. Se uma qualquer alma ousasse invocar a perigosidade de tais práticas rapidamente seria abafado e chamado de velho do Restelo. Entretanto, com tamanha excitação lá viria o Bloco de Esquerda propor que candidatássemos a praxe a património imaterial da humanidade. Tudo o que foi dito até agora é pura ficção, mas poderia ter sido bem verdade!

Nos últimos dias assistimos exactamente ao inverso, com extremar de posições. Como os juros da dívida não sobem – pelo contrário -, o rating da república não desce, o desemprego não sobe – pelo contrário -, não há nenhum ministro para linchar, e o pequeno Daniel da Madeira não teve o mesmo destino que a pequena Maddy do Algarve, os nossos Media aproveitam para incendiar a opinião pública, que agora tem um novo inimigo: a praxe.

Lembraram-se agora que existem praxes. Lembraram-se agora que existem praxes violentas. Lembraram-se agora que como em toda a sociedade, também nos grupos de praxe, há seres com intestinos no lugar das artérias cerebrais. Lembraram-se agora que há estudantes com dezenas de matrículas no ensino superior, gastando os recursos do estado. Lembraram-se agora que não há melhor tema para entreter pacóvios do que aquele que mexe com as suas emoções – e este mexe, porque, ninguém fica indiferente à morte de seis jovens.

Já todos percebemos que a praxe é amada por muitos e que é inquestionável que é um contributo positivo para a integração e para o fortalecimento das relações pessoais dos jovens estudantes. E, também já percebemos, que levada a extremos vergonhosos, pode ser perigosa, humilhante, ultrajante e traumática para quem por ela passa. Ponto final.

O caso do Meco cabe às autoridades investigar. Se foi praxe, já percebemos que não foi uma praxe convencional ou comum de se realizar. Mas parem de se aproveitar das emoções que tal situação desperta, para tornarem a praxe um alvo a abater. Parem de se aproveitar principalmente do sofrimento das famílias das vítimas. Ontem e hoje a TVI abriu os seus telejornais a dizer “famílias das vítimas ponderam recorrer a instâncias internacionais”. Mas o que é isto?! Que jornalistas são estes que não sabem o que dizem?? Mas que instâncias?? Aproveitaram-se, com certeza, do desespero de algum familiar que disse algo como “vou até onde for preciso para descobrir a verdade” ou “recorro lá fora se for preciso”, expressões que muitas vezes ouvimos. É contudo lamentável a comunicação social não ter a capacidade para filtrar tais informações.

Que tristes Media que temos, que deveriam ser um agente de promoção da erudição da sociedade, e são sim um agente de emburrecimento da sociedade.

João Santos

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