Portugueses de dois tipos: os RICOS e os COITADINHOS

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ão há dúvidas que em Portugal temos tudo para ser a capital mundial do surf. E vocês perguntam porquê… Porque somos excessivamente influenciáveis e, como tal, gostamos de ir na onda, apanhar a onda da moda. Se no café o sujeito do lado fala mal do governo, eu não me vou ficar atrás e vou falar ainda pior, cobras e lagartos. Se entretanto outro sujeito falar bem do governo, eu até dou a mão à palmatória e chego-me à frente a dizer que eles são bons rapazes e que até estão a fazer um bom trabalho, a culpa é dos outros que meteram isto no buraco.

A somar a este exemplo há resmas de outros que poderiam traduzir esta veia POPULISTAZINHA e DEMAGÓGICAZINHA dos tugas – depois queixam-se do populismo e demagogia dos políticos. Mas decorrente desta característica surge outra, aquela em que não podemos ser menos que o outro – para o bem e para o mal. Se o outro é rico, eu tenho de dizer e mostrar que sou mais, mas se o outro diz que é um coitado, eu tenho que bradar aos céus que sou um desgraçadinho ao pé dele.

Nos tempos das VACAS GORDAS – por sinal, coincidiu com o período das vacas loucas –, no período dos novos e novíssimos ricos e abastados, ninguém queria ser menos que o vizinho. Se o vizinho tinha um carro bom, o meu tinha de ser melhor, bem como a casa, a roupa, as férias, o tractor e a bicicleta… Se os outros tinham um bom ordenado e viviam bem, eu tinha que me esfolar para mostrar que ainda vivia melhor, ou então dar aquele ar de superioridade intelectual do “sabe eu até tenho uns milhares a render no banco, mas a minha Maria não quer que eu gaste em carros e casas”, mesmo que na verdade não tivesse um tostão furado. Todos queriam ser ricos: ou pela manifestação de sinais de riqueza; ou pela manifestação da ilusão de que tinham condições para manifestar esses sinais de riqueza, não o fazer seria uma mera opção.

Nos tempos actuais de VACAS ANORÉCTICAS – e loucas, dissimuladas – já é desprestigiante e fica mal dizer que se é rico, ou que se vive bem, agora a moda discursiva é a do coitadinho. Se o meu vizinho diz que lhe cortaram na reforma, eu rosno, carrego as baterias, puxo a culatra atrás e imediatamente disparo a dizer que isso não é nada!! NADA! Porque a mim cortaram na reforma, aumentaram o IRS, retiraram a isenção de taxas moderadoras, aumentaram o IMI e ainda deixaram de comparticipar a pílula da minha Maria!

MORAL DA HISTÓRIA: não pondo em causa os enormes sacrifícios que muitos portugueses passam nesta altura, o sofrimento que os assola e as dificuldades em viver um dia de cada vez, a verdade é que também andam por aí uns charlatães. Aqueles que começam com o discurso da moda, do corte na reforma ou no subsídio de desemprego, e depois ao esmiuçarmos a questão constatamos que afinal a reforma até subiu… Ou até foi cortada, mas esse corte não influenciou em nada o seu nível de vida… Ou, no caso daqueles que são comerciantes ou empresários, o seu negócio continua de vente em popa, e se até reduziu a margem de lucro a verdade é que estava habituado a ganhar demais, à custa da fuga ao fisco e da prestação de mau serviço… É evidente que estes casos não são a regra, era bom que fossem, mas ainda traduzem a postura de muitos que por aí andam com a retórica da moda, a do coitadinho.

*Publicado também no blog dextram.blogs.sapo.pt

João Santos

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