PASSOS O ESTADISTA, COSTA O ARTISTA

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assos igual a si próprio: com um discurso complexo, linguagem demasiado técnica, pormenorizado, esclarecedor até ao ínfimo da questão, pausado, pouco exaltado, com um perfil frio, mas que transmite a ideia de que sabe do que fala, e principalmente de que fala a verdade e acredita piamente no que diz. Costa leu o livro dos “10 conselhos para um debate”1 de 1980: com gráficos, citações, olhar zangado, voz alta, a fugir às questões difíceis, a usar chavões, a falar ao coração das pessoas, a prometer mundos e fundos ao mesmo tempo que dizia nada prometer, a falar mal de tudo o que foi feito e a dizer fazer diferente, a faltar à verdade e a insistir nas meias mentiras.


No plano artístico, com todo o respeito, consideração e admiração que os artistas me merecem, Costa ganhou o debate2! Soube representar, colocar a voz, transmitir emoção, transmitir estados de espírito, e principalmente soube alhear-se do mundo terreno. Já Passos ganhou o debate no plano do mundo real, assumiu a sua governação, relembrou a herança que recebeu e disse mais uma vez, preto no branco, qual o caminho para qual Portugal tem pernas para andar, sem que para isso tenha que devolver a Troika aos portugueses.


Acredito que o estilo populista e demagogo de Costa ainda colha frutos, mas não duvido que cada vez menos. As pessoas fartaram-se de politiqueiros. Passos está em condições de ganhar as eleições pela coerência que sempre demonstrou, por ter tido sempre a coragem de dar primeiro as más notícias, muitos antes de se vangloriar com as boas. Poderíamos aproximar o registo de Costa ao registo norte-americano de fazer política, muito assente no show, mas há uma grande e inultrapassável diferença: os americanos fazem uso do lado teatral para potenciarem as suas ideias, já os Costas’s de Portugal adotam esse estilo para potenciarem a forma e não o conteúdo, eximindo-se de dizer algo de relevante.

Voltando novamente ao debate lanço um desafio a todos: revejam o debate, fechem os olhos, e façam o exercício de converter a voz do Costa na voz do Sócrates… Chegam a uma conclusão assustadora: são iguais no pensamento e na forma! Confesso que até hoje nunca tinha visto Costa tão próximo de Sócrates, o discurso é exatamente o mesmo, só não promete, para já, obras faraónicas, mas promete mais rendimento, menos impostos, mais economia, menos austeridade… Negando em absoluto o estado do país em 2011, o estado do país em 2015 e desprezando todos os sacrifícios feitos pelos portugueses nos últimos quatro anos.
Já Passos consentiu uma lacuna transversal a todo o debate, não soube descolocar-se da acusação de ter aumentado a dívida pública, quando bastava ter dito: 1) os 78 mil milhões da Troika entraram para a dívida pública; 2) foram incorporados na dívida pública todos os passivos da administração indireta do Estado (empresas públicas, institutos…); 3) graças ao esforço do país e aos resultados obtidos, temo-nos financiado a juros baixíssimos, tendo em caixa dinheiro suficiente para o país sobreviver durante um ano, ao contrário de 2011, quando havia dinheiro para um mês.


A terminar, não gosto destes modelos de debate, muito pouco tempo para esmiuçar os assuntos e defender ideias, posições e propostas bem objetivas. Ficou clara a diferença entre o PS e a Coligação: milagre da multiplicação das rosas VS crescimento responsável.


1) Se não existe podia existir.
2) Na grande maioria dos estudos de opinião dos sites de informação Costa ganhou, não dizem é que o PS enviou sms aos socialistas a pedir para votarem nesses estudos.

 

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