Os “Ribadouro” públicos

[dropcap size=”500%”]N[/dropcap]estes últimos dias tem havido um grande confronto e aparato devido aos contratos assumidos entre o Estado e o ensino particular e cooperativo. Contestados por uns e apoiados por outros, o Estado decidiu não efetuar novos contratos com as escolas cooperativas, em nome de uma melhor racionalização e aposta na escola pública. Até aqui todos nós sabemos, faltando apenas saber uma coisa: o futuro.


O futuro de milhares de alunos, o futuro de docentes, o futuro de não-docentes, o futuro de famílias. O futuro do pequeno génio que quando não é estimulado em nome do rigor pode acabar por se perder pelas ruas da amargura do ensino pautado pelo fraco rigor. O futuro do aluno com dificuldades que já poderá não ter a mesma aula de apoio semanal, essencial para a compreensão de disciplinas complexas. O futuro do docente que tinha um vínculo laboral menos remunerado do que teria se estivesse no ensino público mas com maiores possibilidades de estabilidade. O futuro do diretor da escola, também ele docente, que se orgulhava pelos resultados nos exames nacionais e rankings, depois de ter sido implementada aos alunos e professores uma política de esforço, sacrifício e resultados exigentes. O futuro do funcionário que já não vai poder conduzir o autocarro de forma a garantir a deslocação segura entre a casa dos alunos e a escola. O futuro de outro funcionário, desta vez que desempenha funções no refeitório que durante 20 anos serviu as refeições a muitos alunos, alguns deles filhos de ex-alunos que já teriam andado na mesma escola. O futuro da pequena papelaria que se estabeleceu nos arredores da escola. O futuro de um território que se pode desmembrar e desvitalizar, um pouco como aconteceu com o encerramento das escolas primárias por todo o país.

Mas agora vamos aos factos. Existem duas formas de aceder ao ensino de forma gratuita: através do ensino público e do ensino particular e cooperativo. Diferenças? Desde a começar pelo número de horas semanais laborais de cada docente passando pela sua remuneração. Chega-se à conclusão que no ensino cooperativo “faz-se mais com menos”, uma espécie de inserção dos valores da gestão privada à gestão pública através de uma racionalização dos meios, algo essencial nos dias de hoje. Existem entidades governativas, que podem ser sujeitas a pressões governativas para apresentação de resultados falaciosos mas favoráveis a algumas decisões governativas, dizem que as turmas ficam mais baratas no ensino público e outras entidades, desta vez independentes de pressões governativas, que dizem que as turmas no ensino cooperativo são mais baratas. Qual delas está correta? Eu não sei mas alguém está enganado.

E a qualidade de ensino? Isso é mais discutível porque “não há regra sem exceção”. Existem escolas cooperativas com resultados excelentes e outras com resultados miseráveis da mesma forma que existem escolas públicas classificadas das mesmas formas. Mas a regra diz que o ensino cooperativo possui melhores resultados do que o público. Como é possível? Através de projetos educativos duradouros, sólidos, exigentes e eficazes que colocam os alunos no centro das atenções apostando em melhores professores, em melhores atividades extracurriculares, colocando metas superiores às colocadas no ensino público e caso existam alunos que não consigam atingir essas metas eram fornecidos apoios escolares. Os próprios alunos apercebem-se dessa diferença de exigência que dizem poder fazer toda a diferença quando estiverem presentes numa situação de exame. E é nesta altura que alguns críticos dizem que a escola pública tem de ser igual para todos. E foi com o objetivo de garantir a liberdade de escolha que o anterior Governo alterou os critérios de abertura de turmas no ensino cooperativo, levando ao agravamento de um problema já existente: escolas públicas com salas vazias e escolas cooperativas na situação inversa. Algumas destas escolas localizadas lado-a-lado. Como se chegou a este problema? Criando-se um precedente no passado em que foram celebrados contratos de associação que não deveriam de ter sido celebrados e escolas públicas que não deviam de ter sido construídas. A solução ideal seria a aquisição das infraestruturas privadas pelas entidades públicas ficando sem ocorrer uma duplicação de infraestruturas e de “gorduras”, algo que acontece hoje.

Tudo isto leva-me a deixar algumas questões: nós não quereremos pequenos génios nas escolas com as condições ideias para “saírem da casca”? Não quereremos pessoas que apesar de não poderem usufruir de um ensino totalmente privado (um exemplo desse tipo de ensino acontece no Externato “Ribadouro” no Porto) possam usufruir de um ensino com exigência e qualidade, próximo dos padrões deste tipo de colégios privados? Será a mediocridade o melhor caminho a defender pela escola pública? Ou a exigência e o desenvolvimento de cada aluno até ao seu limite de forma inteligente seja o melhor processo para preparar os adultos de amanhã para os seus contextos laborais e académicos? Como é que queremos ter os melhores se não lhes proporcionamos as oportunidades certas? Estamos a falar de educação e oportunidades, algo que não se pode negar a ninguém!

Mas esta é apenas a opinião de um ex-aluno que orgulhosamente passou pelas exigências do ensino cooperativo e do ensino público: pela exigência dos testes intermédios elaborados por entidades privadas, pelos testes durante o ano com um grau de dificuldade superior ao de muitos exames, pelo sentimento de ter de ser melhor do que o colega da frente, do lado, de trás, da fila, do canto, de todos! E eu senti tudo isso nos tempos em que estive no ensino cooperativo! Então e no ensino público? Senti com menor intensidade, porém ainda exigente devido às matérias complexas. A exigência e a competição não faz mal a ninguém. Apenas dá um objetivo a perseguir e muita energia que pensávamos não possuir, tudo em nome do “Muito Bom”, do “100”, do “5” ou do “20”, conforme o ciclo académico. Se pode ser demais para uns? Pode e ninguém é igual ao outro. Mas quantos pequenos génios não estaremos a perder por não exigirmos o esforço ideal por parte deles? E olhem que eles existem. Inibidos pelo atual sistema mas existem.

Porque é que querem puxar os jovens de hoje para a mediocridade quando podemos ter os adultos de amanhã para além da excelência? Vamos à procura da excelência! Consectatio Excellentiae! Excelência!

“A escola estatal só ganha com a competição com a escola não-estatal” – Marcelo Rebelo de Sousa, 2011

André Tasqueiro

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