Orgulhosamente castelhanos

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om a quebra de audiências dos últimos episódios da novela “praxe” fomos brindados esta semana com uma nova produção, “El caso de Miró”.

Para justificar, a priori, o título dado a este texto começo por mencionar um facto, que ainda não ouvi ser utilizado, ou então tenho andado distraído. Joan Miró foi um pintor e escultor espanhol. E, neste momento, temos um país – melhor dizendo, a esquerda portuguesa e a “esquerda quando convém – PS”, mais os iluminados do costume, a defenderem a importância extrema desta colecção para a política cultural e artística de Portugal. Quando aqui ao lado, no país berço de Miró, todos aparentam borrifar-se para as suas obras. Para além da fundação a que Miró dá o nome, que veio dizer que gostava muito de adquirir as obras, mas que não tem dinheiro para tal – cumprindo assim o que lhe era pedido, ficaria mal se nada dissesse – a verdade é que nem a Fundação Miró deu uma importância extraordinária a esta colecção. Se desse teria solicitado apoio ao Estado espanhol para adquirir a colecção. E da parte das instituições políticas espanholas nem uma palavra sobre o assunto. Se Miró fosse vivo mudaria de nacionalidade.

Agora de forma telegráfica vou apresentar mais alguns argumentos.

1 – O Estado português nacionalizou um banco – quando não devia – que nos seus activos dispunha de algumas colecções de arte, entre as quais a de Miró.

2 – Todos os portugueses estão a pagar a nacionalização desse banco, fala-se em alguns mil milhões.

3 – O Estado tenta compensar esses prejuízos, desde logo com a venda do banco, e com outros activos de que se apoderou, designadamente a colecção de Miró.

4 – O banco foi alienado por 40 milhões de euros, uma gota de água tendo em conta aquilo que o BPN custou e custa a todos os portugueses.

5 – A base de licitação da colecção de Miró é de 35 milhões, simplesmente menos 5 milhões do que o valor pelo qual o BPN foi vendido. Ou seja, a colecção rende praticamente o mesmo que rendeu a venda do banco. Errado. Os 35 milhões são o valor base de licitação em leilão, podendo a venda da colecção render bem mais, duplicar ou triplicar este valor. Ou seja, a venda dos quadros pode render dois ou três BPN’s.

6 – Aqueles que apregoam à boca cheia os prejuízos resultantes da nacionalização do BPN são os que agora se vêm opor a uma forma de compensar, mesmo que modestamente, esses prejuízos.

7 – Os que todos os dias bradam que há portugueses em situações de miséria, são os mesmos que agora consideram que a prioridade não é realizar dinheiro para responder aos problemas gritantes dos portugueses, mas sim manter uma colecção de arte de um pintor espanhol.

8 – Não é por a colecção ter um valor financeiro incalculável que a mesma deve ser considerada património de interesse nacional, ou algo similar. Miró não era português, nem a sua obra tem qualquer ligação umbilical ao nosso país. Com os milhões de Miró podemos investir em centenas de obras de arte de portugueses, que essas sim, devem ser valorizadas e promovidas, enquanto factor de identidade nacional.

9 – A decisão de manter ou não esta colecção nas mãos do Estado português está longe de ser uma decisão de política cultural, é sim uma decisão de investimento, de venda ou não de um activo. Imaginem só o que seria investir o valor da venda desta colecção naquilo que realmente deve ser a nossa política cultural, aquela que mobiliza a sociedade em torno do seu teatro, do seu cinema, da sua literatura, da sua música, dos seus artistas.

10 – Será que ainda há quem não perceba que estamos em crise. Precisamos de dinheiro. Quando precisamos de dinheiro vendemos aquilo que temos, começando por aquilo que consideramos menos importante, para aquilo que realmente é imprescindível. Quando tivermos dinheiro poderemos voltar a comprar tudo. É tudo uma questão de números. Até podemos comprar a Mona Lisa!

11 – Vejo mais interesse da oposição em impedir esta venda do que vi com algumas das privatizações – não é que eu não concorde com a maioria delas -, algumas de sectores estratégicos e imprescindíveis para o dia-a-dia dos cidadãos. Ao contrário dos quadros.

12 – A deputada socialista Canavilhas que agora diz que os quadros deveriam ter sido classificados, para que não pudessem sair de território nacional, é a mesma que foi Ministra da Cultura quando a colecção já pertencia ao Estado e optou por não proceder a essa classificação!

13 – Tudo isto porque agora o tema das finanças públicas e da economia já não é apelativo, porque para mal da oposição os indicadores têm sido favoráveis à política do governo. Agora já não dá para falar do insucesso do programa de ajustamento, nem no segundo resgate, porque agora discute-se uma saída limpa – à irlandesa – ou uma saída com programa cautelar. Agora, a oposição também já descobriu temas como a saúde, a educação e a justiça para bater na Assembleia da República. Porque agora já não interessa falar da evolução das finanças públicas e da economia. Ao caso Miró chama-se política, na pior das suas acepções.

João Santos

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