O Socialista que Pensa

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sta semana a fundação Calouste Gulbenkian organizou uma conferência com Joseph Stiglitz, um economista estadunidense e nobel da Economia.

Stiglitz defende uma visão bastante socialista. Tenho a dizer que foi muito interessante e extremamente enriquecedor.

Como é possível o ser apático e implacável de direita apreciar e refletir sobre tais obscenidades sociais? Pois aqui está, nós, os orgulhosos social-democratas também temos disto, temos esta costela social, não só em nome, como também na nossa identidade. Não o digo por contrariedade à diabolização levada a cabo por outros, digo-o com sinceridade e justifico-o de seguida.

Esta é a paixão pela social-democracia que Stiglitz me fez relembrar. Nós não temos tabus, não assentamos cegamente em ideologias, damos espaço para o debate, nós mudamos com o tempo se for preciso. Esta é a paixão que o debate entre social-democratas me desperta: por mais acre e prolongada que seja a discussão, raramente termina com o argumento redundantemente ideológico; concretizo: em discussões sérias, não defendemos as privatizações porque é nossa ideologia privatizar tudo o que existe… defendemos certas privatizações porque vemos que as empresas são ineficientes como estão e, por casos históricos, sabemos que uma privatização pode ajudar, uma vez que o privado quer tornar-se eficiente, pois ganha mais com isso. Sabemos que não acontece necessariamente, há exemplos de empresas públicas que têm bons desempenhos, como de privadas que se afundam; mas estudamos o caso e não nos baseamos na ideologia. Para encerrar o assunto, por defendermos isto deixamos as empresas libertas à libertinagem dos privados? Não, nós defendemos a regulação quando se verificar necessário; além de ideologia, é bom senso.

Como é que a conferência se relaciona com o parágrafo anterior? Apesar de Stiglitz não ser a favor da austeridade, reconheci nele este pragmatismo. O próprio afirmou que mesmo em austeridade é possível adotar políticas eficazes de combate à desigualdade. Não reforço este aspeto com o objetivo de justificar este tipo de políticas, seria tendencioso e errado, evidencio com o propósito de mostrar que há socialistas que descem à terra e discutem medidas que alcancem objetivos sociais, reconhecendo a restrição da realidade Europeia.

Terminava com a referência a outro ponto da discussão dessa noite. O nobel da Economia defendeu, com conhecimento de causa, que baixar os impostos às empresas não implica que haja mais investimento na Economia. Reconheço que foi a linha de pensamento do governo anterior; no entanto, Stiglitz afirma que a política não é errada em si, peca apenas por ser incompleta. Sugere que dever-se-ia apenas permitir esse alívio fiscal às empresas que fizessem um investimento continuado no país. Só posso concordar, esta correção iria provavelmente realinhar os incentivos.

Dois aspetos de realce desta conferência na qual se reconhecia a diminuição das desigualdades como o caminho para atingir uma verdadeira prosperidade duradoura.

Portanto, vejo os partidos como unidades com as quais as pessoas se identificam e partilham maneiras de pensar, conservando o seu espírito crítico, mas não como grupos cujas ideologias as pessoas usam para justificar as suas propostas. Uma política de esquerda poder ser tão eficaz e acertada como uma política de direita. Aliás, porque as propostas não se medem pelos lados, medem-se pelos efeitos reais que provocam. Felizmente, apesar de ser uma atitude condenável, felicito o novo governo por estar, mesmo que disfarçadamente, a seguir linhas estratégicas do anterior e deixar como mero “marketing” pré-governativo as ameaças feitas. Esperemos que continue assim.

João Matias

 

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