O que é isso da “Esquerda” e da “Direita”?

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ode parecer estranho, mas em 10 anos de actividade política que levo, esta parece ser a dúvida que mais vezes nos levantam e cuja resposta (correcta) menos gente parece conhecer. É de facto básico e é, basicamente, o princípio do sistema partidário. Então porque tão pouca gente consegue identificar as diferenças? Pior, porque é que tanta e tanta gente vota umas vezes à esquerda outras à direita e vai variando? Eu penso que a resposta é simples: quando se acabou com o debate ideológico e se passou para o debate do argumento passional, acabou-se também com a discussão de fundo (das reformas de fundo e da ideia de Estado) para passarmos à discussão de estilos, de empatia e das promessas mediáticas. Baixamos o nível para chegar a mais pessoas, em vez de subirmos o nível de mais pessoas para que elas possam lá chegar… e “puff” fez-se o Marinho e Pinto.

Uma das principais incógnitas para as pessoas é a existência dos partidos. Porque existem? Porque são tantos? O que os distingue? … A verdade é que a resposta é simples, mas está no plano ideológico. É impossível de se explicar tudo isso quando nos habituámos (a nós e às pessoas em geral) a discutir assuntos de mercearia, de caracter e de trivial interesse. O que mais nos incomoda é a nossa pensão, o nosso ordenado, o nosso subsídio, o nosso… o nosso… o nosso… Não nos incomoda a forma de como tudo isto nos chega, se é sustentável da forma que está ou mesmo se o sistema nos prejudica mesmo quando recebemos.

E tudo isto nos leva ao tema principal: é que deixamos passar a maior discussão de todas e aquela que nos influência a todos. Quando votamos nos partidos votamos nas suas ideologias (muito mais do que nas pessoas que os lideram e nas suas promessas pontuais) e na sua ideia de Estado. Votamos na sua ideia de sociedade e na forma como acreditam que essa sociedade deve ser organizada. Votamos no protectorado, na meritocracia ou mesmo em ditaduras.

Comecemos pelo último (talvez o mais bizarro) e da esquerda para a direita: O Partido Comunista Português (PCP) é Comunista! E é, por isso, o mais à esquerda do nosso parlamento. Mas é também o único que não defende um Estado democrático. Confuso? O Comunismo está, de facto, nos antípodas do Fascismo, mas os opostos neste caso tocam-se e o princípio básico de Governação e de modelo de Estado é (de forma muito simples) basicamente o mesmo, divergindo apenas no reconhecimento da propriedade privada – controlo, obediência e pensamento único. O Estado é o único proprietário e o motor económico de todo o país – todos trabalham para o Estado e o Estado trabalha para todos, ou seja, é o Estado que gere a riqueza e que a distribui. Mas num estado Comunista não há direito a voto e não existem eleições livres, portanto, gostava de lembrar a todos os que votam CDU que quando o fazem e caso o vosso “desejo” fosse concedido, essa seria provavelmente a última vez que o fariam até novo golpe de Estado.

Depois o Partido Socialista (PS): O PS define-se hoje do centro-esquerda ao socialismo (de onde partiu). É um partido que assenta o seu modelo de Estado no proteccionismo e num Estado de grandes dimensões. Um Estado interveniente na economia, assumindo-se como um player em áreas chave, estando presente no tecido produtivo do país – com empresas controladas por si (Ex: GALP, CTT, TAP, CIMPOR, etc.). Mas é também um estado de protectorado, que assume muitas responsabilidades e cria o sistema de distribuição de despesa igualitário – ou seja, para que a educação, a saúde, etc. sejam totalmente gratuitas, em acumulação com o investimento público em estradas, pavilhões, hospitais, transportes públicos, etc., o pagamento das prestações sociais (subsidio de desemprego/integração, reformas…) seja feito a partir de valores elevados e juntando ainda a despesa em ordenados, procedimentos, instalações e manutenção de um Estado grande e com muitos funcionários públicos, a quantidade de impostos a cobrar para sustentar tudo isto tem de ser obrigatoriamente muito alta (sempre mais de 50% do rendimento/ordenado) – A ideia de que todos pagam para todos, mesmo que não utilizem ou nunca venham a utilizar.

Depois o Partido Social Democrata (PSD): O PSD é o partido mais abrangente, indo do centro-esquerda ao Liberalismo de direita (onde se encontra mais nesta altura). É um partido que defende um modelo de Estado pequeno e que não se assuma como um player na economia. Um estado que regula a economia e define as “regras do jogo” mas que não é interveniente. É um partido que acredita na meritocracia e na premiação do mérito – maior competitividade mais produtividade; mais produtividade maior rendimento. Defensor da iniciativa privada e pouco adepto da intromissão Estatal em todos os planos. É um partido que acredita que um Estado pequeno é mais eficiente e “atrapalha” menos a economia – desburocratizando-a e não esgotando os seus recursos para se sustentar a si próprio. Um Estado que, sendo reduzido, apenas está presente em áreas fundamentais para a vida em sociedade, como a educação, a saúde, a segurança e a justiça, mas tendo por base uma ideia mais ligada ao utilizador-pagador – como as portagens, as taxas-moderadoras, as propinas, etc., onde o pagamento é feito pela utilização efectiva e não pelo pagamento adiantado em impostos. Por ser um defensor de um Estado pequeno é também defensor de uma baixa cobrança de impostos, libertando o dinheiro para a economia. Servindo os impostos cobrados para garantir a igualdade dos que menos podem no acesso aos mesmos serviços fundamentais (educação, saúde…) e para investimentos públicos cirúrgicos que permitam o desenvolvimento económico alavancado na iniciativa privada.

Propositadamente deixei o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Popular (CDS-PP) de fora da exposição. Não por preguiça mas porque de facto estes representam, cada um do seu lado, os “indefinidos” de circunstância. O BE é um partido de protesto, não tem ideia de Governo e limita-se a discordar de toda e qualquer política seguida, por todo e qualquer governo – estão para fazer oposição e não para Governar, daí não ser necessário perceber a sua ideia de Governo. O CDS-PP é o chamado “partido jibóia”, definindo-se à esquerda quando dá jeito e à direita quando o jeito é para o outro lado. Há muito que perdeu a sua matriz de direita conservadora e que passou a uma atitude de populismo. É algo que se explica pela sua base de recrutamento – ninguém se lembra de ser do CDS ou do Bloco pelo que estes defendem, porque o segundo não defende nada e o primeiro defende o mesmo e o seu contrário no mesmo dia – bebendo ambos da dissidência de partidos maiores, de gente que não conseguindo vingar no maior, vão tentar para o mais pequenino.

Distinguida que está a esquerda e a direita e considerando que (agora) todos já percebemos o que cada um defende, vejamos algumas coisas engraçadas que nos devem fazer pensar:

1) Não é cómico ver o PCP a defender o 25 de Abril e a chegada da democracia? Ou defender o direito ao voto?

2) Não é claro que o socialismo é altamente insustentável?

3) Percebemos agora porque não é possível governar à direita neste país? (Olhem lá a constituição) Pois… é inconstitucional!

Pedro Brilhante

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