O professor, o ministro e o chefe de governo

[dropcap size=”500%”]F[/dropcap]ui aluno de Carlos Alberto da Mota Pinto e de toda uma geração de docentes que, depois da crise estudantil de 1969 e antes do 25 de Abril de 1974, nos deram alternativas valorativas, face ao pensamento do Maio-68 e à literatura de justificação da ditadura, abrindo-nos ao personalismo de Mounier, ao humanismo de Maritain ou à ideia radical de liberdade, de Albert Camus.


Uma geração de docentes onde também alinhavam nomes como António Castanheira Neves, António Barbosa de Melo e Jorge Figueiredo Dias. Fizeram com que assentássemos numa perspetiva de pluralismo, sociedade aberta e Estado de Direito, mas revigorando uma perspetiva de patriotismo, capaz de conciliar-se com o cosmopolitismo, de matriz kantiana, onde não faltou uma abertura ao projeto de construção europeia, como a manifestada por Manuel Lopes Porto.

Depois de o reencontrar como ministro do comércio, quando eu era técnico de uma direção-geral, mas colaborando diretamente com ele, nalgumas matérias da minha especialidade, volto a cruzar-me com ele no segundo governo presidencial, onde era adjunto político dos gabinetes governamentais do ministério da agricultura de Vaz Portugal e aí já colaborei diretamente como o então primeiro-ministro, nalgumas crises, principalmente na desintervenção do Estado em determinadas empresas e cooperativas agrícolas e agro-alimentares.

Era o tempo de construção deste regime e de lançamento da atitude de Estado de Direito, democracia pluralista e sociedade aberta e de aplicação dos princípios de macropolítica que nos tinham levado à militância cultural e política, onde fomos parceiros ativos. Claro que nunca fui militante ou simpatizante do PPD/PSD, mas, em tempo de lançamento das bases de um regime que era nosso, havia que federar, expressa ou tacitamente, muitas famílias políticas, liberais, sociais-democratas, conservadoras, republicanas históricas e democratas-cristãs.

Com Mota Pinto, aprendemos uma conceção do mundo e da vida e, sobretudo, um estilo de um pensar-agir, com objetivos coletivos e metodologia reformista. Aluno na formação básica universitária, colaborador técnico do ministro e adjunto político do governo que chefiou, posso testemunhar a grandeza do professor e o estadista que nunca deixou de ser um sonhador ativo. Claro que Mota Pinto ainda está por cumprir na obra coletiva, mas ficou, para sempre nas nossas saudades de futuro, em torno dos ideais da portugalidade democrática. Presente!

José Adelino Maltez

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