O mais e o menos da educação em 2014

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mais.

A educação é um dos setores que todo o comentador gosta: está sempre em polémica, nunca deixa lugar a consensos e todos julgam dele saber muito. Daí que as reestruturações sejam animadas, por, à mercê da sensibilidade do observador, se destacarem pontos criticáveis, ou não se estivesse a falar de jovens, de irreverência, de pais, da eterna experimentação e da difícil função de acompanhar os tempos.

Discordo então de muitas das críticas às inovações na área educativa. Com óbvia parcimónia, estas têm de suceder.

Em Pombal, o programa EPIS, de combate ao insucesso e absentismo escolar, é uma aposta que continua a ser arriscada mas cujos resultados, que promete e que tem vindo a alcançar noutros concelhos, justificam o investimento e a confiança que nele se depositou. Refiro-me a uma aposta arriscada porque a área de ação tem resultados, por muito bons que sejam, que não se concretizam em obra capaz de se transformar em bastião da ação política, pelo menos para a população como um todo, sendo, por este motivo, um caso raro ver-se um político abraçar um projeto desta índole.

O investigador Pedro Martins, da Universidade Queen Mary, Londres, num documento para discussão que apresentou em 2010 a um instituto independente alemão para o trabalho, refere-se a uma redução de 10 % nas reprovação, em Portugal, nos alunos acompanhados pelo programa EPIS durante 2 anos. Para quem está habituado aos números da educação, trata-se de uma redução estupenda, em tempo record, e que compensa largamente o investimento. Tanto assim é que o investigador concluiu dos benefícios económicos do programa, uma vez que os eventuais custos das reprovações evitadas são superiores ao investimento no programa.

É por tudo isto que ainda tenho mais vontade de elogiar o programa EPIS e de saudar pela sua implementação no concelho. Os benefícios, sociais, culturais e económicos, que dele resultarão são enormes mas só serão reconhecidos a longo prazo e, essencialmente, a título individual, por aqueles que dele beneficiarão.

O menos.

Na educação, o ano de 2014 ficou marcado por uma herança de final de 2013, que se arrastou todo o ano e promete continuar: a prova de avaliação de competências e capacidades para os professores, que o ministro, corajosamente, resolveu implementar. Se é certo que concordo com uma prova final para os pretendentes a professor (os médicos também não a fazem, ou os advogados?! Porque não se há de aplicar a mesma fórmula aos professores?), a verdade é que o exame que o Instituto de Avaliação Educacional elaborou e aplicou é anedótico e compreendo bem as duras críticas do conselho científico do IAVE – constituído por representantes das sociedades científicas e pedagógicas das diversas áreas do saber –, para grande desespero do conselho diretivo do mesmo instituto, que não as subscreveu. As perguntas, todas, são absurdas, ridículas, ofensivas, neste último caso, tanto para professores, como para as instituições formadoras, como até mesmo para quem elabora tais itens (só que, neste caso, quem elaborou e quem aprovou não parece ter a mínima noção). Ao ver as provas tive a sensação de estar a folhear um daqueles livros de quebra-cabeças que compro ao meu filho para ele se entreter na praia. Uma total ausência do bom senso que referi no início.

Não há nada como ver. Transcrevo três questões (cada uma tem 4 opções de resposta, que aqui não coloco), sendo que a reduzida seleção é feita tomando em conta apenas a extensão da questão, para não alongar demasiado o texto, e não o grau de absurdo:

PROVA DE 2014/2015 “A Júlia saiu de casa para visitar uma amiga: andou 1 km para oeste, 500 m para noroeste, 300 m para oeste, 500 m para sudeste e, por último, 1 km para sul. Para voltar a casa pelo mesmo caminho, a Júlia necessita de andar” [seguindo-se 4 opções de resposta]

PROVA DE 2014/2015 “O orçamento mensal de uma escola distribui-se pelos custos com a manutenção de infraestruturas, com a aquisição de consumíveis e com o consumo de eletricidade. O custo dos consumíveis é o triplo do custo da manutenção e o custo da eletricidade é o quádruplo do custo da manutenção. No mês de dezembro, o custo da eletricidade foi 880 €. Qual foi a despesa total nesse mês?” [seguindo-se 4 opções de resposta]

PROVA DE 2013/2014 “Uma escola profissional oferece duas disciplinas opcionais no âmbito das artes, quatro no âmbito do desporto e duas no âmbito das tecnologias. Cada aluno deve escolher, além das disciplinas obrigatórias, uma opção de cada uma das três áreas. Quantos planos de estudo diferentes oferece a escola?” [seguindo-se 4 opções de resposta]

O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE, I.P.) foi criado sob proposta do ministro da educação e ciência, sobre os alicerces do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), entretanto extinto, por o ministério pretender um organismo autónomo que confirmasse, perante a opinião pública, a transparência dos resultados dos exames e das análises a estes.

Por isto, percebo menos ainda como é que o instituto permite que uma prova disparatada seja colocada à frente dos professores, alegadamente para avaliar competências essenciais para um docente, e que a inerte direção, que devia ter visto logo o descabido do conteúdo da prova, critique o conselho científico por afirmar “Em nenhum momento a PACC avalia aquilo que é essencial: a competência dos professores candidatos para esta função” – mas não é por demais evidente?

António Pires

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