O interior ainda é um bicho de 7 cabeças

[dropcap size=”500%”]O[/dropcap] interior ainda é um bicho de 7 cabeças como referiu à algum tempo o jornal semanal Expresso. Por mais que queiramos ou não, certo é que as pessoas originárias do interior ainda não estão ao nível das do Litoral, não pelas capacidades demonstradas mas sim no que diz respeitos às oportunidades. Podemos comparar este cenário com a situação da mulher em Portugal. Aos olhos do país somos todos iguais e todos temos as mesmas oportunidades mas no terreno … No terrenos as coisas são diferentes e , infelizmente, hoje em dia, no século XXI, as mulheres ainda se deparam com obstáculos que os afortunados homens não sentem.

A A23 também ajuda e não ajuda. Esta autoestrada que visa a rápida ligação à Beira Interior, é, supreendentemente, a autoestrada mais cara do país. Isto requer custos acrescidos de transporte para as empresas do interior. Mais um obstáculo que estas empresas têm de ultrapassar e mais um motivo para que empresas de fora não queiram fixar-se na Beira.

O interior não deve ser esquecido e prova disso são os crescentes centros de investigação, formação e emprego que encontraram no interior formas de contornar esta segregação e utilizam as suas capacidades encontrando vantagens competitivas que os põem em pé de igualdade com as indústrias do Litoral. Prova desta reflexão é o aumento das exportações de lanifícios, a crescente expansão e empregabilidade da Teleperformance, o aumento da produção de queijo da serra e a expansão e criatividade da UBI (Universidade da Beira interior).

A UBI é um caso especial, esta instituição mostra a capacidade de gestão e inovação existente no interior do país, reaproveitando o que abandonado não produzia e encontrando nele vantagens comparativas.

Esta instituição utilizou as velhas e degradadas estruturas de antigas fabricas de lanífundios da região para criar centros de investigação. A UBI tem, constantemente assinado novos acordos com Universidades estrangeiras, foi à pouco tempo distinguida como um dos melhores 100 Departamento de Ciências do Desporto do mundo,uma das suas tunas (Desertuna) ganhou o primeiro prémio do XXIII CELTA – Latin’América e melhor que isso tudo, os seus alunos têm declarado incessantemente mais intervenção e proatividade no panorama nacional.

Mas a Covilhã não é caso único, não se podem esquecer cidades como a Guarda, Miranda do Douro, Vila Real,Viseu, Abrantes, Elvas, Évora e muitas mais. Não deixemos as capacidades de desenvolvimento, crescimento e inovação morrerem. Assim, “ficaremos sempre a ver navios”.

Portugal possui uma desiquilibrada rede urbana porque possui demasiadas cidades de baixa e media dimensão para duas de alta dimensão, já para não falar de as duas cidades de maior dimensão em Portugal serem no Litoral. Está na hora de ultrapassarmos estes obstáculos e começar a dar ao Interior o real valor que merece e todo o respeito pelo que já conseguiu.

O Interior não é só criação de gado ovino, caprino e produção de queijo como eu pensava e milhares de pessoas do Litoral pensam. A primeira vez que comi num restaurante na Covilhã perguntei porque não havia cabrito na ementa. O interior tem muito para nos dar e um potencial enorme para ser peça importante no crescimento.

Nelson Mendes

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