O fim da linha*

[dropcap size=”500%”]N[/dropcap]ão devia ser surpresa para ninguém que a esquerda se comporte como esquerda. Ninguém devia ficar surpreendido com as tentativas de saneamento, com a novilíngua, nem com as técnicas de spin mediático.
Não devia e acredito que não seja. Mas o hábito não deve fazer com que nos conformemos e aceitemos viver numa orwelliana Oceania.


Depois da PRECarização do país na área económica, na educação e na saúde, a máxima de Mariana Mortágua de “perder a vergonha” chegou finalmente ao controlo das vozes discordantes.
Com a comunicação social controlada e alinhada com o discurso vigente e um Presidente da República empenhado em manter o status quo, era fácil transmitir a ideia de que tudo está a correr bem. Mesmo sendo o crescimento a ser cerca de metade do inicialmente previsto, todas as revisões são “em alta”.

Mesmo com os juros da dívida pública a duplicar os valores de 2015, a consolidação orçamental é um sucesso.
Mesmo com a maior carga fiscal de sempre, o que está a acontecer em Portugal é uma “reposição de rendimentos”.

Mesmo com as cativações a asfixiarem o funcionamento do Estado e, por consequência (num país com um Estado omnipresente), o país, tudo funciona bem. Não há crianças com fome, não há espera nos hospitais, não há esquadras de polícia em que falta o papel. Tudo funciona lindamente.
O défice, aquela obsessão dos malvados neoliberais da direita, agora serve para fazer outdoors.


Mas mesmo no País das Maravilhas, há sempre uns ingratos que teimam em não cantar aos quatro ventos como é bom viver no Portugal socialista.

Tem-se, por isso, tornado necessário avançar com a implementação do socialismo, que é como quem diz, afastar todos os mal-agradecidos que duvidam que vivem no Paraíso. É preciso relembrar a Teodora Cardoso que “é um milagre ainda ter emprego e salário”, é necessário desenterrar o caso BES para afastar Carlos Costa, é necessário controlar o que se diz nas Universidades.


Se na AR fazem muitas perguntas, há que limitar as respostas. E a falta de publicação das transferências para offshores, esse problema só agora descoberto e que tanto afeta a vida dos portugueses? (Já agora, alguém sabe onde se consultam as listas? Não? Não me digam que nunca as consultaram.)
E vamos andando nisto, alegres e contentes. Até chegar ao fim da linha.


“A liberdade não se perde de uma vez, mas em fatias, como se corta um salame.”
Friedrich Von Hayek

*Nome do artigo de Mário Crespo não publicado pelo Jornal de Notícias,

Nuno Carrasqueira

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