O Estigma da Direita

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recorrente ouvirmos falar da direita, no léxico político nacional, como algo negativo e até malévolo, que é preciso combater. Os partidos de esquerda frequentemente defendem a necessidade de “acabar com a política de direita”. Este combate à direita é até mais um fim do que um meio. Não tendo a certeza, deduzo que a razão de ser desta postura tenha a ver com o passado Salazarista do país, que deixou no subconsciente de parte da sociedade, a associação de direita ao regime fascista. O espectro político nacional ficou assim enviesado de forma bastante duradoura, o que entendo ser danoso porque, para mim, aqui a virtude está efetivamente no meio..

Tenho inclusive para mim a ideia de que, se em 1975, os comunistas tivessem ascendido ao poder, hoje em dia o debate político teria muito mais conteúdo seria muito mais rico. Porque a conversa binomial de esquerda e direita só motiva o emburrecimento do debate e não contribui para um acompanhamento mais informado dos eleitores acerca das questões do Estado. Até porque os países apelidados de direita em Portugal, apenas o são em termos relativos, porque na verdade são atualmente os partidos que ocupam o centro.

A recente ascensão do governo justificou-se um pouco nessa visão muito básica da política, apoiando-se numa maioria parlamentar de esquerda, quando cada um desses partidos segue a sua própria agenda e uniram-se precisamente para fazer isso mesmo, alavancando o elevado poder negocial de que disfrutaram. O BE é um partido de discurso fácil, vive para ser do contra, vive de sound bites, beneficia de uma grande benevolência de todos, incluindo até os PSD e o CDS, dispensa o ónus da governação e viabilizou o atual governo pois não se poderiam tornar no entrave do mesmo e (parece-me) que esperam também conseguir “esvaziar” o PS em votos caso o governo venha a cair. O PCP é um partido parado no tempo, defende uma “política patriótica e de esquerda” desde que me lembro, lamenta a queda do Chavismo na Venezuela, incomoda-lhe falar sobre a Coreia do Norte, defende uma doutrina política que trouxe mais tragédia e qualquer outra e que simplesmente é incompatível com a natureza humana, e que viabilizou este governo pelas mesmas razões do BE e para defender um dos maiores lobbies do país, no qual consiste grande parte do seu poder. Com estes partidos entendeu-se o PS, especialista em bancarrotas, liderado por António Costa, que tinha de chegar a PM desse por onde desse, dada a sua iminente morte política.

Os partidos e opinadores críticos do anterior governo insistiram também numa estratégia antiga e que se revelou frutífera em várias ocasiões na história. Insistir veementemente em mentiras até que se tornem verdade: O Governo anterior não motivou o aumento da dívida soberana. O que o motivou foi o resgate solicitado pelo PS, as despesas “empurradas” para a frente pelo Governo do saudoso José Sócrates e a fasquia do défice deixada perto dos 11% pelo mesmo; O Governo anterior não falhou redondamente nas suas políticas. Um processo de ajustamento leva a que a situação seja temporariamente pior a curto prazo para fomentar um crescimento sustentável a longo prazo e todos os indicadores económicos apontavam já ao longo de 2015 nesse sentido; O Governo anterior não tentou destruir o Estado Social. Pelo contrário, fez de tudo para garantir que esse perdure. Quem não defende a sustentabilidade do Estado é que poderá estar a querer destruir o Estado Social; O Governo anterior não enveredou por nenhum fanatismo ideológico. O PSD não é o mesmo de 1974, porque Portugal e o Mundo também não o são. Fanáticos ideológicos são os partidos que defendem ideologias que falharam no passado repetidamente e que se recusam a ajustar à realidade dos dias de hoje. Uns com a fama, outros com o proveito.

O debate tem de passar mais, não por que lugar os partidos ocupam no hemiciclo, mas por quem defende políticas mais responsáveis, prósperas e sustentáveis para o país, e não aqueles que seguem meramente as suas próprias agendas. Mas apesar de ser um crítico deste governo, acho que é a altura de provarem o que valem, para os eleitores poderem depois tirar as suas próprias ilações. Claro que a verdade dos factos e a informação que chega aos ouvidos do povo muitas vezes não coincide, como aparentemente acontece agora com a exequibilidade ou não de acabar o ano abaixo dos 3% de défice orçamental. Mas o povo português, mesmo carregando ainda alguma aversão à direita, já demonstrou ser mais sensato e ponderado que outros, e creio que fará a justa avaliação no devido momento.

Boas festas a todos.

Alexandre Ponte

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