O debate está tão vazio que o OE até parece de consenso

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debate político de hoje parece esgotado. Vazio. Como aqui referi no meu último artigo, esse vazio vem sendo crescente desde que se deixou de debater doutrinas e se passou a discutir “pequena mercearia”. Na semana em que se apresenta o Orçamento do Estado, a mais importante peça política de qualquer Governo eleito e o momento mais importante para marcar diferenças para uma oposição que se quer alternativa, a discussão volta a passar por questões de mera pontualidade que só podem levar a chumbos de ocasião. O PS até se deu ao luxo de dizer que chumbava antes de (sequer) lhe passar a vista por cima. Isto de querer enviar sinais em vez de assumir um caminho é “chão que já deu uvas” e infelizmente o vinho dessa colheita (apesar de ter servido de aconchego) deu uma ressaca penosa e perlongada da qual só nos estamos a livrar agora e aos poucos. Eu sei que essa coisa de não cumprir as promessas é propriedade exclusiva dos políticos, mas no dia a seguir não prometemos (a maioria de nós) que nunca mais bebíamos? Queremos mesmo voltar a beber daquela “zurrapa” que sabemos que faz mal, que dá uma ressaca valente (na certa), mas à qual juntamos uma gasosa para nos convencermos de que (afinal) não é assim tão mau e podermos tirar partido momentâneo do que ela nos possa dar?

Mas quanto a isso já lá vamos. O que gostava de frisar nesta altura é a falta de debate relativo às opções inscritas no OE, o último desta legislatura. No inicio o medo (da parte da oposição) era de que vinha aí um Orçamento eleitoralista, com baixa de impostos, com benesses tipo Sócrates – de aumentar na véspera o ordenado dos Funcionários Públicos e não tendo dinheiro para os pagar no ano seguinte, volta a baixar – e que marcasse uma viragem na politica de responsabilidade seguida até então. Nada disso se verificou e rapidamente se instalou um certo desconforto na abordagem do tema. O PS diz que… que… sinceramente não diz nada, só deixou escapar que não era altura de propor nada e que estava no debate para ouvir – típico de quem está cheio de ideias novas, inovadoras e certo que tem uma alternativa credível. O PCP e o Bloco eram os que, de facto, mais à vontade estavam visto que o guiam de resposta é o mesmo desde 1900 AC. E o CDS teve, contrariado, de cair na “real” e visto que não tinham alternativas do lado do corte da despesa para poder passar duas ou três medidas mais eleitoralistas (daquelas ao seu gosto) tiveram de se render às evidências e continuar o processo de consolidação orçamental ao lado do PSD.

Mas o mais importante vem da interpretação que têm estas várias atitudes. É que se repararmos, o senário estava montado para criticar o Governo por tomar medidas eleitoralistas. Ora existem duas dimensões que me deixam perplexo e infelizmente nenhuma dela é boa. A primeira é que por um lado a oposição vem sempre dizendo que o Governo está a aplicar medidas duras e que devia tomar medidas de “relaxamento” – baixar impostos – por outro lado e caso esse desejo fosse atendido, o discurso estava já preparado para dizer que só o faziam por questões eleitorais. Posso não ter entendido muito bem mas vejamos: durante a altura em que não podíamos diminuir nada a oposição reivindicava a diminuição de tudo, quando passado este tempo se criaram as condições para que tal tenha alguma possibilidade de acontecer a oposição vem dizer que agora não… já não é boa altura.

A segunda dimensão é a da percepção popular e da reacção popular a toda esta situação. Sejamos honestos: alguém acredita na boa vontade ou não intenções de quem se comporta desta forma? De quem diz o que é bonito de ouvir, de quem só procura levantar o problema e esconde a forma que tem para o resolver? Alguém acredita que existe uma alternativa credível a este Governo?

A minha opinião é sempre suspeita nestes casos. Mas quando vi o orçamento tive duas sensações distintas mas que me fazem ter cada vez mais certeza de que é este o caminho a seguir e de que é esta a gente certa para nos guiar. Senti o sabor amargo de não ver algumas descidas de impostos no papel e que considero fundamentais, mas quando um Governo toma esta decisão, numa altura tão decisiva (para si) como esta e coloca os interesses de Portugal acima de qualquer outro, não desviando o caminho e não permitindo que se estrague o muito esforço que até aqui foi feito, mesmo tendo essa vontade (de baixar impostos) e tendo mesmo expressado essa vontade para futuro… eu não posso ter mais segurança e confiança num Governo que provou que se alguém tiver de ser sacrificado, será ele próprio e nunca o país – porque acima de tudo está Portugal. Saiba o país reconhecer e não se deixar vender por um “vinho com gasosa”.

Pedro Brilhante

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