O bom filho a casa salva

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o seu último texto neste blog, o Nuno Carrasqueira escreveu sobre a questão da natalidade. Mas há uma classe de mães cujo drama ainda não é suficientemente referido: em Portugal, as pequenas e médias cidades perdem os seus “filhos” para as grandes, ou só os vêem em trajecto casa-trabalho, sem que nunca visitem as que os viram nascer.Comércio, Indústria, Habitação, Saúde, Educação, Acessos, Espaços – em tempo de crise, parece inevitável sacrificar algo à dura realidade. Mas é aí que entra um novo paradigma da revitalização urbana. O modelo anterior, Top-Down, colocava os executivos camarários no papel de construtores, investidores e dinamizadores da economia local. No geral não funcionou, claramente, não só pela questão financeira que acabou a deixar autarquias endividadas e populações dependentes da intervenção pública, mas pela distância da política para a “vida real” que ditou projectos dispersos, fechados sobre si mesmos e sobredimensionados.

Quer isto dizer que as câmaras devem ser meramente construtoras de espaços e responsáveis pela sua manutenção, deixando o mercado local funcionar? Um estudo britânico de 2008 indica como principal traço das regenerações urbanas de maior sucesso na Europa uma autoridade central responsável pela delineação e execução do plano. A diferença, o novo paradigma, é o Bottom-Up, não fazer as pessoas depender dos projectos económicos camarários, mas, com projectos de contexto (e as ferramentas certas), levá-las a criarem elas a riqueza e a guiarem o crescimento da sua cidade. Os edis que não se preocupem: não lhes faltará que fazer.

Como na natalidade, a solução está nas condições económicas e, na base delas, o emprego. Parece um problema impossível de resolver na actual carestia de fundos, mas já há respostas para o “quê” e o “como”, dadas por grande parte dos recentes projectos de sucesso do país e locais: as raízes. Para os pombalenses, boas ideias como a certificação Pombalíssimo servem de exemplo e mereciam, local e nacionalmente, um esforço mais concertando – um plano. O mercado da tradição não é a simples venda de artesanato/arquitectura/produtos/locais, mas a actualização dos mesmos aos novos tempos. Isto implica aprendizagem, inovação, tecnologia, logística, divulgação e venda a uma nova escala, ou seja, emprego intensivo e uma corrente de actividades que se interligam e beneficiam da proximidade entre si, uma espécie de proteccionismo lógico – e positivo.

Onde entram as câmaras, então? Abrindo espaço às suas cidades para tirarem o máximo partido desta e outras soluções: preservando as práticas e produtos tradicionais; disponibilizando terrenos e estruturas para negócios; integrando formação especializada na oferta do concelho; fazendo de todas as zonas significativas áreas residenciais com boas condições de vida para os habitantes e famílias da cidade; simplificando burocracia e taxas para fomentar investimento e crescimento, mas assegurando a sustentabilidade dos modelos adoptados; dando a palavra aos cidadãos; deixando espaço para o surgimento de outros negócios que inevitavelmente surgem com o crescimento de uma cidade; não esquecendo que a tradição é cultura, um dos motores da qualidade de vida e pilar de uma sociedade mais inovadora, exigente e tolerante.

Onde entramos nós? Em todo e cada passo. Exigindo e participando numa melhor gestão, fazendo mais pela cidade e conterrâneos que nos rodeiam e deixando um país mais rico e responsável a quem se segue, para que possam fazer tanto por ele como queremos dizer que fizemos.João Gante

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