Num momento precisávamos de mais dinheiro, no outro abdicamos daquele a que tínhamos direito

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á um ano atrás todos badalavam que Portugal iria necessitar de um segundo pacote de ajuda externa, mais dinheiro com a inevitável dose se austeridade associada… Um ano depois demo-nos ao luxo de devolver o último cheque do empréstimo que nos foi concedido. Se dúvidas existissem do sucesso do programa de ajustamento essas só devem permanecer na cabeça daqueles onde a seriedade não abunda. Faço uma questão, em 2011 quando assinámos o Memorando como é que os mais optimistas previam que o mesmo acabasse em 2014? Dificilmente seria melhor do que aquilo que conseguimos. Uma palavra: sucesso.

Nos anos 80 quando o FMI resgatou Portugal por duas vezes a “convite” dos governos socialistas da época as consequências das políticas prosseguidas nesses anos foram nefastas. Apesar de alguns se querem esquecer do que passaram nesses tempos, não há dúvida que foram anos de uma severidade extrema. Na altura facilmente se desvalorizava a moeda e de um dia para o outro os portugueses perdiam 30% do poder de compra, mas os mais distraídos nem entendiam o que se estava a passar, já que não sentiam o efeito do aumento de impostos e dos cortes directos no rendimento que hoje assolam a nossa sociedade. E na época como a qualidade de vida alcançada até aí ainda era embrionária, psicologicamente a retracção que sentiram nas suas vidas não teve o impacto que hoje tem, imediatamente a seguir ao maior período de prosperidade da história do nosso país. Resumindo, quando se está habituado a viver com pouco, com menos um bocadinho também se aguenta, já quando se “vive bem” qualquer inflexão é sentida.

Tudo isto para dizer que há três anos quando chegámos a uma situação de bancarrota, ninguém podia esperar que fosse fácil sair desse buraco, e que a saída desse buraco fosse conseguida através da prossecução das mesmas políticas que o originaram. Há três anos o cerne do problema estava na não concessão de crédito ao Estado português. Ninguém acreditava na possibilidade de Portugal honrar os seus compromissos e, como tal, não emprestavam dinheiro, o dinheiro de que Portugal precisa há mais de 40 anos, por não criar riqueza suficiente, para sustentar as funções e incumbências do Estado: manter os serviços a funcionar, pagar ordenados da função pública, pagar pensões, etc…

Para inverter essa situação de escassez de crédito, Portugal teve que mostrar ao exterior que ia mudar de vida, que ia “desintoxicar-se” do crédito. Para tal foi necessário encontrar receitas a curto prazo que passaram pelo aumento brutal de impostos. Mas foi também necessário tomar medidas estruturais de redução da despesa, que passaram inevitavelmente pelos cortes na despesa. Da mesma forma que o aumento de impostos, os cortes na despesa também têm implicações severas na vida das pessoas, já que por muito que se corte nas famigeradas “gorduras do Estado”, a grande fatia da despesa está naquilo que serve os cidadãos. Naturalmente que a qualidade e os recursos de alguns serviços públicos diminuíram, os ordenados tiveram cortes extremamente significantes e as pensões mais altas foram no mesmo caminho.

Ninguém disse que ia ser fácil. E o grande objectivo foi cumprido, Portugal vai hoje aos mercados contrair financiamento para continuar a “existir” e a sobreviver ao dia-a-dia, em condições historicamente favoráveis, com taxas de juro das mais baixas de sempre. Se o problema principal era um e se hoje já não é um problema, é sinal que atingimos o pretendido com sucesso. Doeu muito e vai continuar a doer, mas para a dor não aumentar ainda mais convém que tenhamos juízo nos próximos anos, e não nos deixarmos ir no canto da sereia.

João Santos

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