Margarida Rebelo Pinto versão social porreirismo

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RP disse… e se tivesse dito…

“…Fico profundamente triste em ver este tipo de manifestações que demonstram falta de civismo das pessoas que vão interromper e tentar perturbar o trabalho daqueles que neste momento governam o pais” … e se tivesse dito: Fico profundamente triste em ver este tipo de governantes que demonstram uma falta de civismo ao não ouvirem os sinais das ruas, daqueles que se manifestam porque já não têm comida na mesa, porque têm sido roubados por este governo.

“…Falta de inteligência este tipo de manifestações”… e se tivesse dito: Falta de inteligência este tipo de governação e de medidas aplicadas.

“Já tenho manifestado… alguma repulsa e alguma pena que isto aconteça”… e se tivesse dito: Já tenho manifestado…alguma repulsa e alguma pena por sermos governados por estes assassinos.

“Não é com esta atitude de treinador de bancada…ir para lá mandar vir”… e se tivesse dito: Não é com esta atitude de autoritarismo… de exploração do povo.

“Esta coisa de ir ali usar tudo, todos os serviços e mais alguns e nem sequer estar disposto a pagar”… e se tivesse dito: Esta coisa de impedir o acesso da população aos serviços básicos por via do aumento dos custos, quando devemos ter o direito de usar tudo o que é o Estado gratuitamente, porque pagamos com os nossos impostos.

Há uns dias a espuma das notícias trouxe-nos mais uma polémica, desta feita em torno das declarações da escritora Margarida Rebelo Pinto, que não teve qualquer escrúpulo em emitir a sua opinião sobre a actual situação do nosso país e sobre os fenómenos sociais que vivemos.

Tudo seria normal se tivesse utilizado as expressões que eu acima imaginei – e que diariamente ouvimos –, uns chavões contra o governo e a classe política, se tivesse subjugado os políticos à mais reles descrição e, ainda, se até tivesse chamado as mães dos políticos à baila. Fez exactamente o contrário: elogiou o actual governo, pediu respeito por aqueles que nos governam actualmente e censurou aqueles que exercem o seu direito, constitucionalmente previsto, à manifestação. Resultado: caiu o Carmo e a Trindade, porque nós gostamos de liberdade, mas com dois pesos e duas medidas, não vá o diabo tecê-las!

Devo confessar que não sou fã da Margarida e até entendo que se excedeu em alguns comentários, os quais eu não faria e com os quais não concordo. Porém, o que aqui está em causa é uma opinião contra cíclica, uma opinião que não foi ao encontro do “social porreirismo”, que agora está em voga, essa moda que lhe permitiria chamar aos políticos de ladrões, assassinos, filhos da …, fascistas, e afins – expressões que diariamente ouvimos nas manifestações, nas galerias da A.R, nos programas televisivos (com direito a palmas do apresentador) …

Esta intransigência em ouvir opiniões contrárias àquilo que parece ser a generalização da opinião da sociedade é uma perigosa ameaça à democracia, que muitos desses “intransigentes” apregoam à boca cheia. Uma democracia que só tolere determinadas opiniões nunca será uma democracia. Se uns têm o direito a espezinhar de forma generalizada a classe política, os outros não poderão ter direito a censurar essas opiniões?

E os que apregoam a democracia de garganta bem afinada e de braço bem levantado, como concebem uma democracia sem políticos e consequentemente sem partidos políticos? Até pode ser verdade que a democracia não é perfeita, mas já foi encontrado outra forma de organização em sociedade que tenha tido mais sucesso? Penso que não.

A democracia faz-se com partidos políticos, que por sua vez se fazem com seres humanos, uns melhores, outros piores, como em tudo na vida e como em todas as profissões, onde há bons e maus profissionais, uns melhor, outros pior intencionados. Se estamos descontentes com os resultados dessa democracia, só temos que dar o passo em frente e “reciclar” esses partidos políticos, com novas pessoas e novas ideias.

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