“Liberdade de expressão – Só se a «expressão» for a mesma que a minha!”

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uem nunca sentiu que, afinal, a liberdade só funciona para aqueles que se sentem donos dela? Pois… às vezes, dá-me a impressão que não só há quem pense que a liberdade se pratica só para um lado, como a verdade se transmite em pequenos chavões: repetidos vezes sem conta e com uma semântica suficientemente abrangente, para que o mesmo slogan possa ser usado numa importante discussão de “lavandaria” ou numa corriqueira argumentação orçamental…sem nunca perder a pose. Expressões tão importantes como: “roubar o povo”; “assaltar as pessoas”; “matar a escola pública”; “politicas perigosas de direita”, aliadas a importantes reflexões como: “os políticos são todos uns corruptos”; “são todos uma cambada de gente irresponsável sem princípios”; “estes políticos deviam saber o que é a vida e ter vergonha”… consiste para muito boa gente, a mais elaborada das argumentações. Por mais currículo que se tenha, ou explicações que se dê (quer para a aplicação de medidas, quer para se perceber o porquê de as ter que tomar) haverá sempre quem, contra factos, atire sempre com um ou dois destes “geniais” argumentos. Para não falar nos argumentos de “forma”, que esses aplicam toda uma outra transcendência: ele é o “timing”; ele é os “pressupostos”; ele é os “termos adjacentes”; ele é tudo o que é argumento para se “concordar discordando” e sair de fininho.

Temos assistido a tudo isto e (também) tudo isto nos tem parecido absolutamente natural/normal. É a normalidade de quem se julga no direito de criticar quem seja, que se julga acima de quem seja e para quem a liberdade se exerce sobre os seus termos e crenças. Todos os restantes são (obviamente) “perigosos liberais”, “gente mal-intencionada” e/ou “servidores dos grande interesses” que devem ser perseguidos e escorraçados a bem de um tal de “interesse nacional” (onde é que já ouvimos isto?). Mas o interesse nacional não é o interesse de todos? Dos Liberais, dos Comunistas, dos de esquerda, dos de direita… de todos? Porque se aplica tantas vezes na boca de alguns “arautos da verdade” com uma clara tendência?

Já ouvi muitas vezes: “a democracia se tivesse dono não era democracia, era uma ditadura”. Ora, tenho para mim (e corrijam-me se estiver errado) que é na diferença de opinião (de opinião fundamentada) que se atinge o melhor dos resultados, que se assegura a representação de todos e que se faz da democracia (até ver) o melhor dos sistemas políticos. E portanto, não gostava de a ver transformada numa “ditadura” de quem se julga dono dela.

Mas aqui a responsabilidade será de todos e não apenas dos que já se comprometeram a intervir na sociedade. É necessário que a própria sociedade faça, a si mesma, uma autocrítica e entenda que se é para este tipo de manifestação que quer caminhar. De perceber que os políticos são pessoas como todos nós, não nasceram todos lá numa “terra além-mar”, todos com a mesma educação, princípios ou visão. São pessoas como todos nós, podemos ser mesmo nós, os nossos filhos, os nossos familiares ou amigos. Com as virtudes e defeitos de cada um e não de uma “casta” única.

A política é a arte mais nobre de abnegação à causa pública. Aquela em que nos propomos servir os outros e o bem comum. Não podemos olhar para ela como a “caixa” que tem que resolver todos os problemas ou melhorar por “pozinhos mágicos” a vida de todos por igual. É responsabilidade de todos a melhoria do sistema e da nossa sociedade, porque o estado somos todos nós, apenas existem aqueles que nomeamos para nos representarem. Sejamos honestos na crítica, fortes nas convicções, mas nunca nos ponhamos de parte ou à parte a criticar o óbvio, à espera que o óbvio se modifique por si.

A história faz-se dos que têm a coragem de avançar, de assumir e de construir por sua iniciativa. Faz-se dos que escrevem a resposta certa numa altura de exame difícil e não daqueles que por “castigo” continuam a apontar os problemas no quadro.

Está nas nossas mãos.

Pedro Brilhante

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