Ganhar à PCP

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arece que afinal a votação de dia 4 não foi bem aquela que foi. Apesar de ter sido, mas não foi. Confuso? Calma. A técnica é antiga e é a mesma que nos faz sorrir sempre que o PCP (ou aquela coligação com o outro partido que só existe coligado com o PCP) vem, vitorioso, comentar os resultados de qualquer eleição: “foi uma grande vitória do Partido Comunista Português, dos trabalhadores e das trabalhadoras” – pois claro.


Desengane-mo-nos todos quanto a qualquer acto democrático que possamos praticar. No fundo sabemos que nada disso é legítimo da nossa parte e que há muito se instituiu a verdade da “esquerda” em Portugal – os verdadeiros donos disto tudo, ou pelo menos da razão moral e dos bons costumes. Quando a esquerda ganha é um acto democrático e que deve ser respeitada a “vontade dos portugueses”. Quando a esquerda “perde” é a prova de algo transcendente, que a razão não explica, que a superioridade não permite reconhecer e que faz transbordar a verdadeira essência de quem, lá no fundo, nem gosta assim tanto da vontade expressa em voto nem tão pouco a respeita ou considera.


Ficámos avisados, portanto, que quem ganhou, por nossa vontade expressa, foi a esquerda deste país. Que expressámos a vitória da PàF mas que essa expressão serviu de cortina para tapar a nossa verdadeira intenção: proteger a esquerda, atribuindo-lhe uma esmagadora vitória indirecta. Quem disse que não somos todos uns génios da táctica? Nem o prof. Mambo antecipou este cenário.


Mas não podem os mais desatentos afirmar que não foram dados sinais neste sentido. Aquele que todos escolhemos para liderar um governo maioritário, António Costa, cedo mostrou a forma como as coisas seriam interpretadas no futuro. Ora, a direita sempre nos enganou com a história de que tinha sido Sócrates a chamar a TROIKA, ensaiando, de forma grosseira, o rescrever da nossa história democrática. Situação que Costa desmascarou e colocou, com grande mestria táctica, a descoberto. Sócrates só apareceu para dar credibilidade a este acto fratricida da direita. Porque, como sabemos, só a esquerda tem a capacidade de credibilização de qualquer acto. Mais uma vez: o que foi, não foi, apesar de ter sido.


Mas atentemos também na leitura politica desta intenção que expressámos. Ora, parece-me evidente que o voto concertado à esquerda (vamos considerar a esquerda que se assume vencedora por maioria) é um voto verdadeiramente de ruptura. Nomeadamente de ruptura com as leis da física. Que pede a saída e a manutenção no Euro, que pede a saída e a manutenção na EU, que exige uma maior liberdade e uma maior integração em relação à zona euro, que reivindica uma renegociação da divida e o respeito pelos compromissos com os credores. Verdadeiramente uma posição de força e coerência, bem demonstrativa do pensamento e da vontade expressa dos portugueses quando pensaram votar à canhota. Demonstrativa até, de que estavam empenhados, por saberem das semelhanças, em atribuir mais força aos partidos mais pequenos de esquerda em detrimento daquele que poderia, só por si, aglutinar toda esta visão conjunta e consolidada. No fundo representam a mesma coisa, defendem o mesmo e, portanto, é legítimo que se reúna a esquerda para formar este governo maioritário que defende uma posição firme e linear, coincidente com a vontade expressa em urna. Mas que pelas suas semelhanças também devem ir para esse governo com dimensões mais equitativas.


Contudo, este cenário engendrado pelos portugueses, ainda apanhou desprevenidas algumas forças políticas de esquerda. No BE, há mesmo uma deputada eleita, Domicília Costa, que afirma que estava nas listas apenas para preencher o espaço. Espaço que lhe valerá agora um outro, o de deputada à AR. Em causa não estará a própria que, como boa militante, atendeu à necessidade do seu partido e lhe deu a mão, a assinatura e os papéis (para dar andamento ao processo). A questão é de princípio: elegendo apenas 19 deputados e tendo já, neste lote, pessoas que estavam para “encher”, está de facto o Bloco preparado para assumir a responsabilidade do que seja? Ou, por outro lado, quer de facto o Bloco assumir a responsabilidade do que seja? Talvez a “revelação” Catarina Martins nos saiba explicar.


Por fim uma mensagem aos derrotados:


Caro Passos e caro Portas, não vale a pena negar. Os senhores não mereceram a confiança dos portugueses. Bem sei que há 6 meses nem consideraríamos que este cenário, agora alcançado, fosse sequer possível e que Costa teria um passeio mais calmo. Mas isso são outras núpcias que agora também não interessam para nada. Leiam a vontade dos portugueses e percebam que acabou. A esquerda, como sempre, saiu vencedora, a direita derrotada e tal como no PCP, o resultado é mera estatística e numerário repressivo. A vontade do povo é a vontade da esquerda, mesmo quando o povo se engana e põe a cruz no sítio errado.

Avante camarada.

 

 

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