Fátima, Futebol e Fado

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liveira Salazar construiu um regime alicerçado em três pilares, a chamada política dos três F’s: Fátima, Futebol e Fado. Porventura inspirado na política dos romanos, do pão e circo, como modo de combater a insatisfação popular, Salazar foi um pouco mais longe e cedo percebeu que o povo luso se mobilizava e se entusiasmava com a religião, o desporto e a música.

Volvidos quarenta anos desde o término da ditadura, o desígnio de Salazar continua a cumprir-se! Portugal continua a ser o país dos três F’s. Não há mobilização em Portugal como a que se verifica por altura das peregrinações a Fátima, recinto cheio, milhares de peregrinos nas estradas, uma fé que atravessa todos os grupos sociais e todas as faixas etárias. Não esquecendo as recepções feitas ao Papa quando este visita o nosso país, os portugueses fazem questão de dizer presente, isto depois de meses e meses de preparação para esse momento.

Falando agora de Futebol e Fado, que aparentemente distantes têm muito em comum, pelo menos na hora da morte dos seus símbolos, falo evidentemente de Eusébio e Amália. Quem nos últimos dias viu as enchentes que acompanharam Eusébio até à sepultura, quem viu uma sociedade de joelhos a chorar pelo seu ídolo, só terá memória de outro desaparecimento e de outras cerimónias fúnebres com tamanho impacto social, as de Amália. Recordo-me das imagens do dia do seu funeral, com as ruas de Lisboa repletas de cidadãos a chorar por si, tal qual se viu esta semana com Eusébio.

Não tenho memória e não tenho conhecimento de uma morte que nas últimas décadas tenha provocado tamanha comoção aos portugueses, como estes desaparecimentos originaram. E, não vislumbro nos próximos anos outra figura que possa mexer tanto e com tantos portugueses. Prova dessa quase unanimidade em relação à figura que foi o Pantera Negra, foi o consenso de todos os partidos em que o mesmo deve ser translado para o Panteão Nacional.

E, se o Fado propriamente dito já não mobiliza assim tanto a sociedade como no tempo do salazarismo, pese embora tenha sido recentemente declarado Património Imaterial da Humanidade e estando novamente “na moda”, a verdade é que o futebol continua a levar milhares aos estádios, continua a pôr uma nação, em uníssono, contra o Presidente de um organismo internacional de futebol e até contra uma marca de refrigerantes, isto porque ofenderam o melhor jogador português da actualidade.

A constatação de que o desígnio dos três F’s ainda se encontra bem vivo, poderá levar muitos a chamarem de provinciano o povo português, de inculto ou até de atrasado. Porém, essa não é a minha opinião! Limito-me a constatar uma evidência e a deixar as conclusões para cada um, não deixando de frisar que prefiro uma nação que se mobiliza por alguma coisa, neste caso por três, do que uma nação que com nada se mobiliza e que em nada se revê. Venham daí esses heróis, esse sebastianismo e essa humanidade e humildade que nos caracterizam.

Ah e evidentemente que Salazar estará orgulhoso por ver que o seu país continua a cumprir o seu desígnio – Fátima, Futebol e Fado.E um muito obrigado ao Eusébio, nunca o esqueceremos.

João Santos

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