Essa tal coisa do empreendedorismo…

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crise pela qual passamos e que parece não ter fim à vista, para além de todas as consequências negativas, impulsionou também várias evoluções positivas denotadas no povo português e sua cultura. Para além de todos nos termos tornado peritos em economia e finanças, de repente, somos também os expedicionários do fenómeno denominado de empreendedorismo.

Palavra para mim até há poucos anos totalmente desconhecida, hoje entendo-a, basicamente, como um antónimo do vocábulo crise. Não fosse essa tal coisa do empreendedorismo vista como o novo Santo Graal dos tempos actuais, a resposta para ultrapassar a crise.

Assim, hoje a moda é ser empreendedor, criar uma empresa, um negócio próprio, ir a palestras ouvir dizer que o que é preciso bater punho. Todos querem criar uma empresa, é fácil há apoios, subsídios e isenções. Mas criar uma empresa de quê? Não se sabe muito bem, mas isso também pouco interessa, o importante é começar, o resto… logo se vê.

Contudo, se analisarmos os dados da criação de empresas desde 2010, não encontramos uma evolução favorável na criação de empresas quando comparada com o número de empresas dissolvidas (ou a caminho da dissolução). Em Portugal, no ano de 2014 (até Agosto), constituíram-se cerca de 23 mil empresas mas cerca de 25 mil tinham sido dissolvidas e mais de 7 mil encontravam-se em processo de insolvência.

Se calhar alguém se está a esquecer de informar que a larga maioria dos empreendedores acaba sem dinheiro, sem negócio, endividado e sem perspectivas. Mas como diz o outro: ‘’Entretanto passaram-se uns tempos e pode ser que a coisa tenha melhorado’’.

Todo este fenómeno é fomentado pelos governantes, que fazem uso do empreendedorismo como arma de combate ao desemprego. Um erro, óbvio e manifesto, pois os muitos incentivos não significam a criação de negócios sustentáveis, geradores de mais emprego e eventual riqueza para o País. Esta política pública de fácil atribuição de apoios ao empreendedorismo terá facilmente o efeito contrário do pretendido. O actual empreendedor está normalmente impreparado para iniciar um negócio, mas como que ludibriado pela falsa ideia de que este é o caminho fácil para prosperar, arrisca e… falha.

Não sou contra o empreendedorismo, nem contra os apoios governamentais a quem quer criar um negócio, aliás, considero estes apoios fundamentais, apenas não nos moldes actuais, em que o requisito primeiro para se poder ser empreendedor é estar desempregado.

João Carreira

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