Em terra de Cegos quem tem olho é Rei

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os últimos dias os temas económicos têm sido falados de forma bastante particular. Decorrente do “desastre” do antigo BES, a grande dúvida que se coloca nesta categoria prende-se com o sistema financeiro, a sua aparente supremacia perante o Estado e a suposta inevitabilidade de ser o Estado a salvar os coitados dos privados que “acidentalmente” são vítimas de enormes buracos que destroem por completo as suas empresas.

Assumindo a responsabilidade, a exigência e a competência que a economia de mercado acarreta para os órgãos nacionais, proponho uma reflexão.

Em primeiro lugar, qual poderá ser a ideologia económica mais segura para o atual nível de desenvolvimento?

Excluem-se desde já as posições extremistas (que ganham bastante popularidade a nível europeu), essas, de certeza, não são nada seguras, muito menos aconselháveis.

Existe uma teoria económica que afirma que um país se deve especializar nos bens que produz a custos comparativamente mais baixos do que os restantes. Defendo que a mesma teria pode ser extrapolada para a intervenção do Estado na Economia. Este deve-se especializar nas funções que consegue desempenhar com maior rigor e eficácia comparativamente com o setor privado. Deste modo, concluo o seguinte: em Portugal, deve-se fomentar uma economia de mercado liderada pelo setor privado; no entanto, é obrigatória a exigente supervisão e regularização, por parte do Estado, das atividades desenvolvidas.

Mas tal liberalismo económico pode ser prejudicial e provocar grandes estragos na economia nacional.

Pode e tem provocado. E quem tem pagado somos nós, cidadãos. Por esse mesmo motivo o Estado tem fazer aquilo em que é melhor: criar mecanismos de supervisão, fiscalização e de regulamentação. Claro que tem de passar a fazê-lo melhor do que tem feito ultimamente. Mas sem dúvida que a criação de riqueza pertence aos privados, eles sim têm esse como principal objetivo. E sem dúvida que a melhor eficiência nesse aspeto permite ao país ter ganhos acrescidos. Tomo como exemplos a passada edição do NOS alive que apenas em IVA, diretamente dentro do festival, rendeu cerca de 800 mil euros e as 7 edições do WRC Rally de Portugal, que apesar de terem sido apoiadas com fundos públicos, atingiram o acumulado de 348,2 milhões de euros de impacto direto a preços constantes na economia nacional. Referi estes aspetos por se tratar de parte do setor cultural, aquele que o Estado descarta em primeiro porque é uma regalia que não produz riqueza, mas que nas mãos dos privados consegue gerar muito valor.

Podendo o capitalismo ser a resposta para o crescimento da economia se devidamente controlado pelas entidades responsáveis, não será a desigualdade social a ele associado a sua grande queda?

Penso que esta tem sido uma das perguntas perpétuas desde que se segue este modelo económico. Arrisco a dar uma resposta objetiva a este pesadelo. É função do Estado Social especializar-se no apoio social às famílias, garantir a redistribuição dos rendimentos e promover a maior igualdade social. Não entendo o capitalismo como uma ideologia errada, mas sim como um sistema exigente. Para o seu sucesso, são necessárias 3 condições cumpridas: um setor privado maduro e responsável que saiba criar valor e inovar constantemente para poder permanecer competitivo e não andar sempre à deriva de subsídios para sobreviver; uma população informada, culta e consciente que tenha capacidade de perceber os mecanismos que influenciam a sua qualidade de vida, que possa ter uma visão crítica e saiba fazer-se ouvir corretamente junto das entidades; por último, um setor público realmente rigoroso e competente que supervisione, regule e proteja as pessoas ao mesmo tempo que salvaguarda o correto funcionamento da economia (basicamente a cola que junta isto tudo).

Este não é o sistema atualmente em vigor?

Na sua essência é. É o modo como devia funcionar o país, provavelmente uma utopia. Mas não deixa de ser a meta a alcançar.

O problema para não funcionar é que a política e a nossa cultura ainda não chegaram ao nível de maturidade necessário. Especialmente a primeira ainda é tendenciosa, não honra os seus princípios e muitas vezes envergonha o que foi sonhado na sua construção. A política não defende o melhor consensual, mas sim a verdade parcial dos teimosos, alérgicos a consensos fundamentais.

Em Portugal a resposta não está na esquerda, nem na direita, e muito menos noutro sistema financeiro. Está sim na consciencialização e no compromisso de todos de cumprir os requisitos para fazer o modelo económico valer.

A política correta está em se construir projetos a longo prazo e de não se forçar a sua limitada visão por quatro anos, destruindo os quatro anos anteriores.

Mas toda esta teoria é sabida, passemos à prática!

João Matias

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