Educação de extremos: da ditadura à anarquia

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xiste consensualidade relativamente a parâmetros da Educação que deveriam reger uma sociedade, embora possam ser colocados em prática de forma diferente. Conforme as sensibilidades ideológicas. É uma banalidade dizê-lo, mas a verdade nunca está só de um lado.

Considero que o modelo de escola está ultrapassado. Que é preciso mudar mais do que introduzir pequenas inovações, ou alterar constantemente programas educativos. Mas, enquanto a mudança e a vontade política de mudança não chegam, a escola tem de funcionar. Enquanto o modelo pedagógico dominante é o método simultâneo (ensinar a todos ao mesmo tempo e da mesma maneira como se fossem um só) e não um modelo de diferenciação pedagógica, capaz de respeitar os ritmos e formas de aprendizagem de cada criança ou jovem, a escola tem necessariamente de funcionar.

Não me parece que princípios como o trabalho e a disciplina (como parte do processo de ensino-aprendizagem do ser social), deixem de ser necessários a qualquer escola ou pedagogia.

Disciplina, do latim, discipulus + discere: ensinar, educar o discípulo, que é uma pessoa que tem alguém como modelo ou referência.

A disciplina é uma condição básica para a aprendizagem. Vem uma parte de casa (ou deveria de vir…), outra parte da vontade pessoal do cidadão (considerada “autodisciplina”) e outra parte é construída (e continuada) socialmente, onde se inclui a escola.

A escola, a pedagogia e o docente nunca substituirão a necessidade de disciplina por parte de quem aprende, para que possa aprender mais e melhor. O progresso intelectual exige rigor e disciplina.

A disciplina desenvolve atitudes como a concentração, a responsabilidade e o interesse, que se transformam em ferramentas pessoais e de trabalho. É ainda um instrumento sem o qual as coisas não acontecem – ou acontecem fora do prazo ou dos padrões.

A disciplina parece hoje uma palavra feia e incómoda. Tal deve firmar nos nossos traumas da ditadura, ainda tão próxima historicamente, e tão presente na mentalidade portuguesa. Mas, disciplina não tem de significar ditadura ou fascismo. Não tem de ser negativa. Não tem que ser ferramenta de opressão. Já não estamos no tempo da disciplina através da autoridade não democrática.

O que eu percebo é que a indisciplina também pode ser ditatorial. Como pode um, dois ou três alunos ditarem e imporem a indisciplina a toda uma comunidade de aprendizagem, violando o direito de todos os outros ao bom ambiente e ao bom decorrer do processo de ensino-aprendizagem? Será isso a escola nova, a pedagogia nova que alguns pretendem?

Nem ditadura do professor, nem ditadura de quem aprende. Porquê querer passar de um extremo para o outro? Por outro lado, os adultos não podem esquecer que a disciplina e as regras são necessárias e têm a responsabilidade de dar referências claras à nova geração, sem complexos. Para que se tornem pessoas autónomas, autodeterminadas, equilibradas e integradas socialmente.

Quando a abordagem democrática (dialogante, comunicativa, compreensiva e sensível aos problemas sociais e emocionais de cada um) não tem sucesso e não chama à razão o indivíduo, é preciso atalhar caminho e impedir que a indisciplina individual se transforme numa ditadura sobre toda uma comunidade de aprendizagem, com prejuízo para todos.

Diria mesmo que, na dúvida, mais vale “exagerar” na disciplina do que o contrário. Um pouco de disciplina a mais nunca fez mal a ninguém. Disciplina a menos tem feito mal a muita gente.

Contudo, há correntes pedagógicas que têm dificuldades em lidar com a questão da indisciplina. O assunto é lateralizado. Espera-se que a indisciplina se resolva por si, espontaneamente, apenas com boa vontade, prevenção e negociação.

É como se a disciplina pessoal brotasse, naturalmente, da relação de respeito ou das regras de convivência construídas (e aceites) por todos. Acredito que aconteça e o ideal seria assim, mas a natureza humana nem sempre o permite, nem sempre se autodetermina e autodisciplina.

Quando a instância familiar falha no contributo para a solução, quando falha a vontade do próprio, a escola deve enquadrar esse aluno indisciplinado em serviços de tutoria e/ou de acompanhamento (social e emocional) até que tenha competências sociais mínimas para integrar o grupo de aprendizagem e aprofundar essas competências no contexto social do grupo. Porque este contexto social da turma nem sempre é capaz de amortecer e absorver os comportamentos indisciplinados. Muito menos só pela acção do professor isolado na sala de aula (em exclusão).

As posições extremadas e os radicalismos, sejam eles quais forem, de direita ou de esquerda, tendem a esquecer o bom senso e algumas verdades básicas (realistas). É preciso haver acordo no fundamental.

“A disciplina é a alma de um exército; torna grandes os pequenos contingentes, proporciona êxito aos fracos, e estima toda a gente.” George Washington

Celso Casinha

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