E depois do Adeus

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m vésperas de 25 de Abril, era difícil que o tema deste texto fosse outro que não homenagear os 40 anos que se contam desde o Dia da Liberdade.

Penso, no momento em que o escrevo, quem sou eu que nasci tantos anos depois de 1974, para me referir com propriedade a este dia? Eu que nunca vivi na pele o medo ou sequer o constrangimento de dizer aquilo que quero, onde quero e a quem me apetece; a mim que nunca me foram incutidas as ideias de “Deus, Pátria e Família” e ensinado que a mulher não deve ter uma vida profissional, devendo antes ser boa mãe e dona de casa; eu que só aprendi o que era o Tarrafal numa escola que já não tinha um crucifixo na parede; eu que nasci e cresci em democracia e num ambiente de pluralismo partidário e que só soube o que era a PIDE depois desta deixar de existir? Pois até conseguirei perceber, mas será muito difícil sentir a grandiosidade e o marco que este dia representa, do mesmo modo que sentem as pessoas que viveram sob um regime totalitário.

É por isso que me causa uma estranheza enorme ouvir pessoas mais velhas e, pior ainda, alguns jovens que sempre viveram em democracia e sem opressão da sua liberdade, dizer: “No tempo de Salazar é que era”. Mas será que se desligaram da realidade entretanto?

Não vamos mais longe… Otelo Saraiva de Carvalho, um dos Capitães de Abril, disse publicamente que Portugal precisava de “de um homem com a inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar” para resolver a crise. Mas atenção: teria de ser alguém com olho para equilibrar as finanças, mas que para isso não fosse necessário impor um “fascismo à italiana”. Mas o crescimento económico do Estado Novo deveu-se a quê? A Portugal viver em clausura relativamente à Europa e a ter um dos rendimentos per capita mais baixos comparativamente aos outros países; com uma mão-de-obra barata e sem instrução; sem investimento na educação e saúde?

Há sempre quem diga que a situação do país neste momento se assemelha a viver num Estado totalitário, atendendo à reforma do Estado que tem sido levada a cabo. Sim, houve medidas de austeridade que nos foram impostas sem grande margem de negociação. Sim, entendo que a nossa soberania tem sofrido compressões severas. Sim, muitas das medidas são susceptíveis de serem discutidas e criticadas, mas a verdade é que a situação actual é resultado de um pedido voluntário de ajuda externa (repito, voluntário) ajuda essa que nos tem permitido o financiamento que não conseguiríamos nos mercados até muito recentemente (já que ontem Portugal voltou a emitir obrigações do tesouro, esperando arrecadar 750 milhões de euros).

Ainda assim, que confusão é esta que vai na cabeça das pessoas que ora comparam o incomparável, ora querem retroceder a um regime fascista? Talvez 40 anos seja muito tempo, de facto.

Devemos sim debater ideias, manifestar discordâncias e diferenças, criticar e apontar o dedo a medidas injustas e desajustadas. Mas ora bolas, podemos ou não podemos fazer tudo isso sem sermos silenciados? O 25 de Abril trouxe-nos a democracia e essa liberdade, pelo que este dia deveria ser recordado e celebrado por isso mesmo. Mas talvez 40 anos tenham permitido o distanciamento que as pessoas precisavam para não se recordarem daqueles tempos que já foram e que (felizmente!) não voltarão!

Daniela Rosa

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