E ainda o congresso…

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ão poderia deixar de escrever sobre o Congresso do PPD/PSD, não podendo deixar de partilhar a minha visão sobre o que lá se passou, a visão de quem o viveu, já que tive a honra de ser delegado ao mesmo pela concelhia de Pombal do PSD.

Um congresso do qual nada se esperava. Esperava-se sim, um folclore de críticas ao governo e à direcção do partido, vindas das bases do partido, dos congressistas anónimos de todo o país, que no dia-a-dia sentem a crise tal qual todos os outros comuns. Além disso, mais nada se esperava, porque este modelo de congresso também não ajuda. Fazer um congresso depois das eleições directas, onde é eleito o líder do partido, restando para o conclave somente a eleição dos restantes órgãos e a discussão e votação de moções, não é propriamente o modelo que mais suscita a discussão e confrontação de ideias e projectos – como seria se o congresso se realizasse antes das directas.

Foi neste registo de pouca emotividade que decorreu o 1º dia de trabalhos, 6ª feira. Já Sábado foi o dia revelação. A primeira grande intervenção foi a de Morais Sarmento – pessoalmente não esperava outra coisa, porque é alguém que eu admiro –, colocou os dedos na ferida, não teve papas na língua, colocou-se ao lado do governo na estratégia levada a cabo nos últimos dois anos, sem contudo deixar algumas farpas subtis. Foi ele que “espicaçou” os críticos de bancada para não terem medo de ir ao congresso e foi ele que mandou umas “directas” a Capucho e Manela, relembrando que esta última, enquanto líder do partido exclui Passos da lista de candidatos às legislativas. Aqui o congresso acordou.

Luís Filipe Menezes foi justificar a derrota no Porto e ao mesmo tempo que responsabilizou militantes do partido pelo mau resultado, deu a outra face e defendeu que ninguém devia ser expulso. No geral, fez demasiado de “coitadinho”, não apreciei. Teve o lado positivo de ser mais um ex-líder do partido a comparecer e a demonstrar o seu apoio a Passos.

Por volta das 20h, surgiu Passos a anunciar Rangel como candidato às Europeias, o congresso correspondeu com forte entusiasmo. E que discurso que fez Rangel! Um discurso absolutamente acutilante, aceso, forte e entusiástico. Começou ligeiramente hesitante, mas pouco depois já estava a fazer levantar o congresso com as críticas inteligentes e incisivas à oposição – um registo que, por vezes, falta ao governo. A intervenção de Rangel tinha tudo para ser o marco deste congresso.

Quando a fasquia já parecia intransponível surgiu a grande surpresa deste congresso, Marcelo Rebelo de Sousa. Que só ao ser anunciado pôs o congresso fervoroso. Não vale a pena qualificar a intervenção de Marcelo, já todos a conhecem e já todos a admiram. Resta tirar ilações. Marcelo foi ali para duas coisas: mostrar à direcção do partido que vai ser o que ele quiser, porque as bases vibram só a ouvir o seu nome e as bases representam a população; e colocar-se ao lado do governo e de Passos, porque Marcelo sabe que é mais fácil ser candidato a Presidente da República se essa vontade partir da direcção do partido, um braço-de-ferro só desgastará as duas partes, e Marcelo só vai para ganhar. Inteligente como é, conseguiu os dois objectivos.

Santana Lopes foi outra boa intervenção. Dedicou grande parte do discurso às questões sociais, o que pessoalmente me agradou bastante. De todas as figuras de proa foi a menos simpática para o governo, a meu ver. Marques Mendes compareceu mas não interveio, possivelmente devido ao adiantar da hora. Mas, daqui a uns anos com o surgimento de mais uns ex-líderes, se todos fizerem questão de falar, temos de marcar um congresso só para os ouvir!

Duas notas finais, uma negativa e outra positiva.

Negativa: Fernando Costa. A sua intervenção já é uma das mais aguardadas do congresso, por ter um histórico de intervenções emblemáticas. Fez rir o congresso, foi acutilante e teve em boa forma. O problema foi o conteúdo. Deu uns recados ao governo e falou em concreto para vários ministérios, mas não passaram de umas frases feitas revestidas de um populismo latente. Falou de Loures e mais Loures e do novo amigo comunista Bernardino – com tanto elogio parece-me impossível que volte a concorrer contra ele –, lá pelo meio falou uma vez ou duas das Caldas, o que seria perfeitamente normal… Seria se Costa não fosse Presidente da Distrital de Leiria do PSD, quem não conhecia esse dado também não ficou a conhecê-lo. Provavelmente ficaram com a ideia que era Presidente ou da Distrital de Lisboa ou da Concelhia de Loures.

Positiva: O fantástico resultado alcançado pela lista ao Conselho Nacional encabeçada pelo Pedro Pimpão. Uma lista com a marca JSD, liderada por um ex-jota, mas eternamente jota, pelo legado que deixou a esta estrutura e pelo percurso que está a iniciar no PSD. Por tudo isto, pelos valores que o Pedro transmite, pela força viva que é e pelas pessoas que move consigo, é que eu acho que independentemente do cabeça-de-lista da lista oficial, o resultado da lista H seria sempre surpreendente.

*Publicado também no blog dextram.blogs.sapo.pt – com o qual comecei a colaborar.

João Santos

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