Deram-me o peixe, não me deram a cana e agora querem que pesque?

[dropcap size=”500%”]N[/dropcap]

ão pretendo utilizar este espaço, especialmente como jovem independente e não filiado em nenhuma juventude partidária, para discutir as medidas deste ou daquele governo. Pretendo apenas deixar alguns tópicos para reflexão pessoal.

Não vou deixar a minha opinião, pelo menos de forma expressa, sobre a alteração do pagamento de taxas moderadoras, prevista no Decreto de Lei n.º 113/2011, com as várias alterações que lhe foram sendo introduzidas. Continuo apenas a achar que é uma medida que vem culpabilizar uma sociedade inteira por não saber, por exemplo, quando se deve dirigir aos Cuidados de Saúde Primários ou quando se deve dirigir directamente a uma urgência hospitalar. É neste ponto que surge a minha pergunta: mas em Portugal há educação para a saúde? A organização mundial de saúde define literacia em saúde como o conjunto “competências cognitivas e sociais e a capacidade dos indivíduos para ganharem acesso a compreenderem e a usarem informação de formas que promovam e mantenham boa saúde e a capacidade para tomar decisões em saúde fundamentadas, no decurso da vida do dia-a-dia – em casa, na comunidade, no local de trabalho, no mercado, na utilização do sistema de saúde e no contexto politico”. Exigem-nos o pagamento de taxas para reforçar o orçamento do sistema nacional de saúde, mas ninguém ensina que tipo de dor de barriga é para ser vista no médico de família e qual é que tem direito a uma porta aberta das urgências. E ainda têm o “governamental” descaramento de dizer que as pessoas abusam dos recursos, quando não houve, para a maioria, educação em saúde nos ensinos básico e secundário. A pouca formação que os jovens alunos têm é, neste momento, feita por pessoas sem competência formativa para tal (isto sem querer denegrir o esforço e verdadeiro empenho dos professores que, de repente, foram lançados ao mar!). Ainda há quem pense que a única doença de transmissão sexual é o vírus da imunodeficiência humana ou que não se engravida na primeira vez em que se tem relações sexuais.

É altura de repensarmos a educação. Uma das ferramentas para evitar gastos desnecessários é dar conhecimento. Vitor Hugo, escritor francês, dizia: “Quem abre uma escola, fecha uma prisão”. E não é só a nível da criminalidade que temos verdadeiros partos de sucesso. A educação promove também comportamentos preventivos, demonstrou diminuir a gravidez na adolescência, aquisição de melhores hábitos de higiene e também (a lista é, sem dúvida, extensa) capacita as pessoas a desempenharem mais e melhores funções, tanto a nível laboral (desde o trabalho técnico ao ensino superior), como a nível das inúmeras competências do quotidiano e familiares.

Da mesma forma que a sociedade tem carácter dinâmico, também o ensino deve ter. Somos desde jovens treinados e orientados para fazer parte da força laboral, quer como trabalhador por contra própria, quer por conta de outrem, mas quantos de nós é que tiveram qualquer tipo de contacto com um código do trabalho durante o ensino básico ou secundário? Fomos instruídos dos nossos deveres e direitos enquanto trabalhadores? E depois surge um verdadeiro quebra- cabeças quando temos que preencher uma declaração de IRS, gozar a licença de paternidade a que temos direito ou passar um recibo. Só a alguns é ensinada a diferença entre um crime público, semi-público e particular, quando na verdade nos dizem respeito a todos. E note-se a importância social que tem saber quais são os crimes públicos: basta que o Ministério Público tenha conhecimento da sua ocorrência para instaurar o procedimento criminal, sem que seja necessária a intervenção da vítima ou do ofendido. Será que a maioria sabe que, por exemplo, a violência doméstica, aquela que se passa dentro de quatro paredes, é um crime público? É óbvio que são tudo falhas da nossa educação que são corrigíveis, não fôssemos nós um povo autodidacta e dado ao, já conhecido, desenrascanço.

Estas áreas são transversais à maioria das pessoas e irão certamente estar presentes nas nossas vidas. Então qual é o motivo de não serem contempladas no ensino público? Não deverão fazer parte de um tronco comum e não serem apenas áreas de conhecimento reservadas para certos agrupamentos? Não será benéfica a criação de uma disciplina de saúde, leccionada por pessoas com formação direccionada para tal, como já acontece em outros países? E que tal dar umas noções na área do direito à malta? A disciplina de educação cívica pode e deve ser aproveitada como uma plataforma para abordar temas de real importância para o futuro e não apenas para fazer os TPC de francês. É altura de repensar a educação e de tornar os programas lectivos menos rígidos, não só para que estas questões pertinentes sejam abordadas com rigor, mas também para que haja espaço ao pensamento livre.

Deram-me o peixe, não me deram a cana e agora querem que pesque? É altura de parar de culpabilizar a sociedade por só conseguir alforrecas, quando a podemos instrumentalizar para apanhar a bela da maruca!

Diogo Barreiro

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *