“Deixem-me sonhar”

[dropcap size=”500%”]E[/dropcap]

m Outubro de 2006 iniciei a minha formação superior na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, na altura era um jovem não muito interessado na política nacional, quando me sentei na primeira aula, de direito constitucional, leccionada pelo grande Mestre, Doutor Gomes Canotilho. Nessa mesma aula ouvi falar, provavelmente pela primeira vez, da dívida pública e a sua crescente cavalgada, da necessidade de o Estado se financiar lá fora. Mas, de tudo o que o Professor disse naquela aula, o que mais me intrigou foi a denominada oneração das gerações futuras. Lembro-me de estar, como os meus colegas, completamente a apanhar bonés, quando o Professor se dirige a um dos meus colegas, e lhe pergunta em tom de exclamação: “Sabia que os seus impostos, os quais ainda nem sequer começou a pagar, já estão gastos pelo Estado!?”

Desde aí fui ganhando interesse naquilo que todos os cidadãos devem ter interesse, a política, que mais não é que estar informado e participar naquilo que nos toca a todos.

Aquilo indignou-me, não sabia como seria possível algo assim. Hoje percebo melhor o que aquilo queria dizer, percebo que é necessário fazer opções, investimentos que implicam encargos futuros. Mas é preciso traçar a “linha”. Até onde é legítimo que um governo (ou mais) crie encargos para quem vem, geracionalmente, a seguir?

Era essa “linha” que tanto intrigava o pensamento do Professor, o qual, julgo, procurava desenhá-la à luz da Constituição. Penso que tal tarefa se afigurava difícil, talvez impossível. Seria necessário um acontecimento que invertesse o rumo, algo grave, sério.

Sucessivas decisões políticas vieram agravando a nossa situação, foram-se criando mais encargos, muitos deles encapotados nas contas públicas, também com conivência europeia. Criou-se uma convicção de que tudo era fácil, era só preciso mandar vir mais umas malas de dinheiro, Portugal era rico.

E o inevitável aconteceu.

A “linha” fora desrespeitada largamente. A bomba rebentou. Afinal, não havia dinheiro, Portugal não era rico.

Hoje vivemos com as repercussões do que fizemos ao longo de décadas, não se vislumbrando uma data para o seu fim (apesar de haver por aí uns ‘’contadores’’).

Quero acreditar que aquele acontecimento necessário sucedeu em 2011. Quero acreditar que a inversão começou nessa data. Quero acreditar que o pior já passou. Contudo, nada acabou, ainda agora começou. Para o futuro não podemos criar encargos insustentáveis, como fizemos no passado, atirando-os para debaixo do tapete. Temos de criar sim uma base sustentável, que nos permitia ser de novo autónomos. Por fim, quero acreditar que o passo dado ontem entre governo e PS, ao acordarem na reforma do IRC, foi o primeiro de muitos. Demorou 2 anos e meio a acontecer, mas quero acreditar que não ficará por aqui. Talvez esteja lançada a base para o entendimento, que, prevejo, virá a ser imposto pelos resultados das legislativas de 2015. Precisamos de um consenso alargado nas reformas estruturais do país, ontem foi dado um sinal importante, agora é só continuar.

“Deixem-me sonhar.”

João Carreira

PS(D): “ Deixem-me sonhar” foi uma expressão proferida, aquando do Mundial de Futebol de 1986 no México, pelo então seleccionador nacional José Torres, o Bom Gigante. Um grande, do meu Benfica e da selecção. Fica a homenagem. Que descanse em paz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *