As praxes e os novos alunos

[dropcap size=”500%”]T[/dropcap]odos os meses de Setembro, milhares de alunos do ensino secundário iniciam uma nova etapa nas suas vidas e ingressam no ensino superior. Com esta entrada, pais e alunos ganham novas preocupações, existindo uma que é bastante comum entre todos: a praxe.


Odiada por uns e amada por uns, a praxe académica, a meu ver, deve de ser um meio de integração dos caloiros em que lhes são incutidos regras básicas de vivência em sociedade. Se é o único meio de integração? Não. Porém é dos que mais facilita o contacto entre puros desconhecidos que chegam a uma cidade sem a conhecerem. Porquê? A resposta a essa pergunta resume-se ao facto de centenas de pessoas de todo o país aparecem no mesmo sítio e à mesma hora para se conhecerem e fazerem as amizades de uma vida. Felizmente é o que acontece muitas vezes.

As entidades praxantes – doutores, mestres, veteranos e veteraníssimos – hoje são vistas na sociedade, muito devido à comunicação social, Ministério da Educação e alguns partidos, como ‘bichos papões’ e ‘colecionadores de matrículas que mais nada sabem fazer’. Tudo isto devido ao facto de terem tomado a parte pelo todo. Muitas EP’s (abreviatura referente às entidades praxantes) estudam, trabalham mas acima de tudo querem saber sobre se os caloiros estão bem, se estão a ter boas notas, se precisam de alguma ajuda sobre alguma coisa ou se já se perderam na nova cidade que os acolheu. Isto é o que se pode chamar de ‘verdadeira preocupação’ por pessoas que acabaram de conhecer.

Cerca de 90% dos novos alunos estão assustados em relação às praxes. Razões não lhes faltam devido a casos como o do Meco. A fama das praxes é, no mínimo, má e isso muito se deve a más decisões tomadas por más entidades praxantes mas as Comissões de Praxes esforçam-se para que isso mude: praxes solidárias, jogos tradicionais, entre outros momentos diferentes que formam pessoas. Muito se aprende nas praxes: desde como trabalhar em equipa, passando a aprender a como respeitar uma hierarquia ou então a fazer sacrifícios em nome de algo. Aprende-se ainda que quando dizem para baixar as calças é para os caloiros se sentarem, perdendo o medo do ‘bicho papão’. Aprende-se perder a vergonha e a ter de ir em pleno Rossio tentar trocar objetos insignificantes por algo mais, ganhando o grupo que conseguisse os objetos mais insólitos. Um espírito de grupo é criado e um amor pelo curso e pela instituição crescem dentro de cada um. Para mim, hoje tenho orgulho em pertencer ao curso e à instituição que me acolheu muito devido à integração que aconteceu na praxe. Ganhamos honra e orgulho em estar onde estamos. Defendemos o curso como se fosse o nosso protegido contra tudo e contra todos. Tornamo-nos melhores pessoas.

Porém nada vem sem sacrifício. Muitos perguntam se a praxe é dura. Fisicamente é mas o mundo laboral não é mais duro? Não existe uma hierarquia no mundo laboral? Não se tem de trabalhar muitas vezes em equipa com pessoas que não conhecemos? No nosso futuro não iremos estar algumas vezes fora da nossa zona de conforto? Não será a passarmos por experiências desconhecidas que iremos crescer? A praxe não serve para humilhar, serve para integrar e para preparar para o futuro. Quem por lá passou sente uma honra enorme em ter sido praxado e voltava a ser praxado. Mesmo quem acabou de deixar de ser caloiro.

A praxe é um conjunto de momentos divertidos para todos, entidades praxantes e caloiros, em que o desconhecido do lado deixa de ser o ‘desconhecido’ e passa a ser o ‘António’ ou a ‘Maria’. Se isto não é aproximar pessoas que eram desconhecidos e fabricar o início de amizades de uma vida, eu não sei o que a praxe poderá ser porque a praxe não é destruidora de pessoas. A praxe é integradora! A praxe é a fabricadora de memórias na altura mais importante da vida: AGORA! Aproveitem!

André Tasqueiro

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