Altas tensões

A vitória do Brexit em Junho do ano passado abriu uma nova era na (des)integração europeia, cujo capitulo mais escaldante vemos agora iniciar-se.

As negociações para a saída Reino Unido da Europa unida ainda agora começaram e já foram assombradas pelo assunto Gibraltar, com a sugestão dada por Lord Michael Howard que o Reino Unido poderia entrar em guerra com Espanha. Não poderia ter começado de forma pior uma já anunciada difícil negociação. Este tema aliada à insistência da Escócia no desejo de se manter na U.E., tendo para isso que sair do Reino Unido e os rumores de que Espanha, receando os ventos independentistas da Catalunha, se colocaria numa posição contrária à manutenção da Escócia faz emergir cada vez mais uma dúvida. Paralelamente não podemos ignorar as várias correntes fortes de oposição aos ideais da U.E. que vemos prosperar pela Europa fora, alicerçadas por votações importantes em partidos declaradamente antagonistas da U.E., como é caso paradigmático a França.

Se pusermos estes factos todos num quadro e o observarmos, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que vivemos um autêntico clima de pré-guerra, com direito até a conflitos territoriais, ao estilo das antigas querelas colonialistas. Esta ideia de que estamos em pré-guerra parece absolutamente ridícula quando olhamos para a história recente da construção da U.E.. A união de valores, regras comuns, cooperação, solidariedade – o caminho irreversível para uma cada vez maior integração europeia parece tão presente em todos nós – que sequer a mera hipótese de acontecer o contrário nos parece um mero exercício académico. Contudo, também todos diziam que a possibilidade do Brexit era remota, e hoje é uma dura realidade. Infelizmente temo muito pelo que se avizinha, temo que a falta de tolerância e esquecimento de alguns dos valores que fundaram a Europa unida possa potenciar uma situação para todos impensável.

Resta-nos desejar que os decisores não tenham faltado às aulas de história e se lembrem de não repetir os erros do passado, tão recente e tão doloroso.

João Carreira