Ainda o Debate

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oi já há alguns dias mas ainda vai dominando algumas das conversas sobre a política nacional e a pré-campanha a que vamos assistindo. Do apanhado geral das opiniões publicadas a ideia que fica no rescaldo é que António Costa saiu vencedor porque… foi mais “aguerrido”. Ora, não querendo por em causa a validade da análise parece-me redutor a ideia de que se possa ganhar um debate porque simplesmente se pareceu mais convicto, ou mais firme, ou mais assertivo ou mais espalhafatoso, sem ligar “patavina” ao conteúdo e à análise das propostas que estão em cima da mesa. Mas este estilo de análise, em que se analisam discursos da mesma forma que se analisam os vestidos nas rubricas do jet7, é mais do que um simples desprestigio para quem os profere, é verdadeiramente mentiroso na mensagem que passa. Se fosse relevante a acutilância no discurso para se ser um político de craveira, nem Cavaco tinha ganho com 4 maiorias nem Sócrates teria perdido qualquer debate até hoje. O primeiro ganhou porque o conteúdo agradou, o segundo perdeu porque o conteúdo falhou… e falhou redondamente.


Comecemos então pelo princípio: o modelo. Foi o pior de que tenho memória. Mais jornalistas que candidatos, mais perguntas provocatórias que esclarecedoras e mais análise demonstrativa (de quem quer mostrar que sabe) por parte dos pivôs do que tempo de resposta de qualidade para qualquer um dos candidatos. Aqui jogaram os 2 em modo “hard” e quer um, quer outro foram demasiadas vezes interrompidos pelos jornalistas que estavam obcecados em mostrar que os “conseguiam meter na linha”. Muito mau.


Depois o debate em si. Ficou claro que Costa não sabe os números com que se cose o seu próprio programa e se sente desnorteado relativamente à sua herança partidária (a mesma que ajudou a construir). Talvez por isso se tenha destacado tanto nas partes em que tinha de olhar para a câmara e “mostrar proximidade com os espectador” – profundamente ridículo – ou na acusação acutilante de quem manda umas larachas ao lado para não ter que discutir o que não está à vontade para discutir – as tentativas de empurrar as culpas da chamada da TROIKA para o actual governo foram um espectáculo deprimente de se assistir. O importante de ressalvar é que Costa, no plano dos números, não era conhecedor da quantidade de cortes que o seu próprio programa propõe para a estabilização da SS, o que lhe valeu uma depreciação clara na forma como se recusou em mostrar abertura para um futuro consenso tendo por base um corte muito inferior aquele que ele próprio propõe – para não falar do facto de ter atacado esse mesmo corte, mas isso deriva do mesmo problema dos números seguintes. Ainda no plano dos números, Costa também não conseguiu justificar, nem reconhecer tão pouco, como pode continuar a insistir que os números positivos que surgem na economia são afinal negativos. O Discurso do “ir para além da TROIKA” é absolutamente verdadeiro mas apenas nas partes em que António Costa diz que o Governo não fez um bom trabalho – nos apoios aos que menos podem, no aumento das prestações sociais a famílias com filhos a cargo, na implementação de politicas activas de emprego com programas de sucesso como o Impulso Jovem, como no aumento das pensões mínimas, o aumento do salário mínimo, etc. Foi aqui e só aqui que de facto o Governo foi além da TROIKA, de resto é sabido (e tanta vezes interromperam os oradores para nada, bem lhe podiam ter lembrado disso) que o programa original foi revisto nas metas por diversas vezes para que pudessem ser mais exequíveis e alcançáveis. Ou seja, a má negociação e as metas inalcançáveis, de que o PS tanto se queixa e que os fez defender tanto a extensão do programa como a reestruturação da dívida, foi feita no memorando original, negociado e assinado pelo PS com a TROIKA que eles chamaram.


Para além deste aspectos está ainda o facto – não falado no debate – de os números do desemprego com que o PS se compromete para 2016 estão a cima do que já se verifica hoje em 2015 (para desmascarar a parte do “temos as contas bem feitas!”) e o facto de Costa não conseguir justificar a meta com que o seu ministro-do-memorando-dos-economistas se comprometeu na criação de emprego. Lembro que o Emprego, Emprego, Emprego é a prioridade das prioridades do programa do PS (esta também entra para a categoria das “contas bem feitas”).


Por fim a questão de princípio e caracter. António Costa disse, logo no início do debate, que o seu maior feito – aquele que lhe confere estatuto de bom gestor e que o define do Governo – é o facto de ter conseguido pagar 40% da dívida da Câmara de Lisboa. Isto distingue o que é António Costa e o que tem definido este PS ao longo dos anos de Sócrates. No fundo qualquer argumento é válido para justificar o que eles sabem ser uma aldrabice. António Costa pagou a divida com o dinheiro que o estado lhe deu pela compra dos terrenos adjacentes ao aeroporto, tendo a compra sido motivada pela privatização da ANA. Ora nada disto teria importância se:


1. Costa tivesse previsto esta venda e fizesse parte dos seus planos este pagamento;
2. Costa fosse a favor da privatização da ANA.


Ora, nenhuma destas opções é verdadeira. Nem Costa planeou este cenário, o que torna o seu grande feito obra do acaso. Nem Costa era a favor da venda da ANA – era mesmo contra – o que faz das suas declarações vitoriosas um acto dissimulado e absolutamente deprimente.


Quanto a Passos Coelho mostrou que não sabe ficar por explicações simples, mas que isso o prejudica perante os comentadores. Que quer explicar as coisas de facto e tem respeito pela integridade intelectual de cada um de nós quando tenta multiplicar-se em explicações sobre o que propõe, mas que isso o prejudica perante os analistas políticos.


Fica em sua defesa, para além de todos aqueles que nele acreditam e confiam, os números do desemprego a descer há 30 meses consecutivos, os números da criação de emprego a subir consecutivamente, os números das exportações a bater recordes consecutivos, o crescimento do país que cresce acima da zona euro e as muitas noticias como aquelas que recentemente recebemos de que pela primeira vez temos um português eleito para a board da Organização Mundial do turismo, que Portugal foi o país onde mais cresceu o emprego do primeiro para o segundo trimestre deste ano e que pela primeira vez desde à muito anos até o inicio do ano escolar está a decorrer sem qualquer problema.
Tudo boas noticias para Portugal, tudo más noticias para o PS.

 

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