Afastar os jovens da política é pôr tudo em causa

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odos aqueles que desejam muito mal aos seus filhos e netos devem vender-lhe um discurso de diabolização dos políticos e da política. Confuso? Acha esta frase muito forte?… Vou desmitificá-la e mostrar que sem intenção e irreflectidamente colocamos em causa o futuro dos jovens e o futuro de uma sociedade: matamos a democracia!

No mundo ocidental há uma verdade absoluta, que quase ninguém ousa colocar em causa: ainda não encontrámos melhor do que a democracia! Foram muitos séculos de experimentalismos de diferentes formas de organização em sociedade, foram muitas guerras, muitas lutas e muitas mortes, até num passado relativamente recente, para que hoje possamos viver em democracia.

Essa democracia que só se faz com pessoas – de carne e osso, com virtudes e defeitos, melhor ou pior intencionadas – a que decidimos chamar de políticos. Políticos que têm uma “actividade profissional”: governar todos, decidir a pensar no melhor para todos. Há aqueles que são incompetentes, há os que são inábeis, há os que não sabem o que fazem e há os que são corruptos. Há muitos e para todos os gostos! E então?! Os médicos têm como actividade profissional cuidar dos doentes e também não há os que são maus profissionais, ou que são corruptos??? Os professores ensinam e educam e não há aqueles que são incompetentes e que também procuram o benefício próprio à custa do prejuízo alheio?? Não há empresários aldrabões?? E…e…e…muitos exemplos poderiam aqui ser ditos. Não quero com isto dizer que a classe política tem o direito a ser isto porque a sociedade que representam também o é. Não. Quero dizer que como seres humanos podemos ser capazes do melhor e do pior, somos todos diferentes e como tal nunca poderemos controlar aquilo que é a capacidade ou aquilo que são as intenções de cada um.

Mas voltemos ao inicio deste texto: os jovens. Os jovens – que para além de no seu percurso escolar não terem um único fórum em que possam ser elucidados sobre o que é a política, qual a sua génese e quais os seus fins, o que são ideologias, o que é a democracia, o que é a direita e a esquerda – ainda crescem a ouvir na escola, em casa e na televisão o pior da política e dos políticos, a sua diabolização. Este é um caminho muito perigoso. Estamos a formar jovens que sem o saberem já pensam como anárquicos ou pensam como apologistas de ditaduras e totalitarismos. Se as gerações mais novas, que são os Homens de amanhã, não souberem de onde vimos e o que custou a muitas gerações as conquistas que hoje temos, facilmente voltarão aos experimentalismos de outros tempos e hipotecarão o mais perfeito de todos os regimes, a democracia.

Não quero com isto dizer que está tudo bem, que os políticos são excepcionais e que a política está completamente credibilizada. Não! Longe disso. Contudo, sejamos razoáveis, sérios e pragmáticos: fazemos uma revolução e mandamos tudo a baixo, o que resultaria daí? Mais cedo ou mais tarde teríamos, naturalmente, mais do mesmo. Defendo evidentemente algumas reformas no sistema político e partidário e até no modelo de sociedade que temos, mas devemos mudar a partir do que temos e não mandar a baixo para voltar a construir.

Termino com este caso prático. Se não concordamos com a gestão que está a ser desenvolvida na nossa empresa, o que fazemos? Se não concordamos com o trabalho que está a ser levado a cabo numa associação o que fazemos? Em ambos os casos tentamos mudar por dentro. No primeiro procurando subir na hierarquia da empresa para poder vir a “fazer as coisas à minha maneira” e no segundo candidatando-nos à associação para poder aí também “fazer as coisas à minha maneira”. Em momento algum nos passa pela cabeça querer acabar com a empresa ou com a associação ou até com os seus dirigentes! Então porque fazemos isso com a nossa sociedade? Se queremos o melhor para os nossos jovens devemos incentivá-los a participar, mostrando-lhe que é possível fazer melhor, que é possível fazer diferente, mas que para isso não é preciso destruir o que temos, mas sim continuar a construir o que já alcançámos!

João Santos

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