A vitória de Trump e a consagração da precariedade

[dropcap size=”500%”]E[/dropcap]screvo este texto numa altura em que talvez este assunto esteja mais esquecido, sensivelmente entre a vitória de Trump e a sua tomada de posse em Janeiro. Mas aproveito o facto de o futuro presidente norte-americano ter sido nomeado na quarta-feira passada “Pessoa do Ano” pela revista TIME (uma nomeação bem mais previsível nas casas de apostas que a sua própria vitória), para voltar a este tema, embora consciente que corro o risco de sobre isto nada acrescentar.

Aviso antecipadamente os anti e os pró-trumpistas que esta crónica não recai sobre o caracter ou as políticas da pessoa em questão. O que pretendo fazer é uma breve reflexão sobre o resultado dessa odisseia, bem ao estilo de Mel Brooks diga-se, que foram as presidenciais norte-americanas e as possíveis consequências a nível politico que daí advêm.

Nestas eleições assistimos a uma candidata, Hillary Clinton, a ser apoiada pelas mais diversas figuras públicas. Quase todos os seus comícios contaram com a presença de um artista de topo, os grandes comediantes arrasaram o seu opositor com tudo o que podiam e os meios de comunicação e comentadores políticos tomaram partido da democrata como nunca antes visto. Do outro lado, Donald Trump serviu-se essencialmente do seu discurso, extremista, incendiário, cheio de acusações e algumas claras inverdades.

Posto isto, a grande conclusão que tirei destas eleições é que vale mais um discurso baseado em algumas propostas concretas, mesmo que neste caso algo duvidosas, que transmita uma ideia de esperança e de mudança do que qualquer outra estratégia política. É certo que temos de ter em grande conta o actual ambiente de incerteza que se vive, de instabilidade financeira e de falsa segurança. Mas também é certo que o eleitorado de hoje possui um nível de escolaridade não antes alcançado, com fácil acesso à informação e por isso capaz de analisar melhor as propostas apresentadas. Estou convencido que se do lado democrata existisse nestas eleições um candidato com um discurso mais claro, que transmitisse maior segurança, mesmo que ponderado, ganharia a Trump.

Com esta conclusão, a minha preocupação é as mudanças na forma como é feita política a nível mundial que resultam desta tese.

Na Europa já temos vinda a assistir a um grande crescimento por parte de partidos extremistas que representam exactamente esse discurso radical com uma forte mensagem de mudança. O exemplo máximo é a situação de França e o favoritismo que Le Pen tem vindo a alcançar. Acredito que a vitória de Trump pode ter vindo a reforçar esse estatuto e a dar alguma credibilidade e confiança à candidata. Assim como aos seus apoiantes, nem que seja por poderem usar aquele argumento que tanta vez usávamos em criança do “eu fiz porque o Joãozinho fez” para justificarem o seu voto. E sim, na altura se o Joãozinho se atirasse para dentro de um poço, alguns também iam, nem que fosse por pensarem que era uma piscina.

Até aqui acredito não ter dito nada de novo. A minha maior preocupação (e aqui sim talvez a maior mudança na política que comecemos a assistir) é que os líderes dos partidos centristas, habituais favoritos a ocupar os cargos do governo e representantes da sensatez, em vez de clarificarem e melhorarem as suas políticas para ganharem a confiança das pessoas, optem por adoptar este tipo de discursos para combater a ascensão dos partidos extremistas e a fazer uma ou outra promessa mais radical.

Para além da qualidade que toda esta situação retira aos programas políticos, o grande problema é que esses mesmos políticos para se manterem no poder e os votos do seu eleitorado, tenham de começar a cumprir essas mesmas promessas.


David Gomes

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