“A última Grande Luta”

[dropcap size=”500%”]É[/dropcap]

esta a frase com que termina a notícia do Público que relembra a invasão do Senado de Coimbra pelos estudantes da UC em 2004. De forma curta e clara o ex-dirigente Renato Teixeira demonstra toda a amplitude da intenção do protesto: simplesmente protestar. E mais realça quando categoricamente afirma que “a malta de hoje é muito sossegada”, não protesta e não se mobiliza para o protesto. Na altura, como agora, parece que o protesto é quem mais ordena. Conta pouco a causa, seremos tanto melhores e mais livres de espírito quanto mais protestos carimbarmos no passaporte e quanto mais coisas formos partindo pelo meio. É esse o fundamento básico de quem se quer bem formado e de canudo na mão… um verdadeiro reivindicador de direitos, um defensor da negação e um fiel oponente do poder instalado (mesmo que o que lá esteja seja mesmo instalado pelo povo e pelo voto do povo – pormenores). Essa coisa de a malta da universidade ter de pensar alternativas (realistas) ao que é proposto ou mesmo à sua condição actual é que não cabe na cabeça de ninguém – se estudas protesta e guarda o raciocino para o estudo, que te vai fazer falta na oral de amanha às 9h.

Confesso que esta é daquelas temáticas em que mais vezes entro em desacordo com alguns bons amigos. É gente inteligente, séria e muito capaz, que sente o pulsar da academia e que é consciente do papel que nela quer desempenhar e que por isso lhes custa a entender o que já se vai vendo como evidente. As academias estão vazias. Vazias de causas. Não que elas não existam ou que os seus desafios (os da educação) não sejam cada vez maiores e mais complexos, mas porque se esvaziaram por si… porque se foram esvaziando nesta cultura do protesto sem rumo e da reivindicação para “deixar como está”. Não acompanhou a evolução dos tempos e não percebeu que o tempo do dizer que “não” só, não chega.

Desde há muito que as academias confundem o falar de educação com o falar de propinas e de bolsas escolares. E não saem dali. Se a propina sobe, não só não devia subir como devia descer e tender para zero – a conversa é a mesma desde os 300€ e já vai nos 1000€. Pouco importa o porque da subida ou as soluções para uma possível alternativa, é gritar bem alto “não pagamos” e logo se vê. Com 18 anos sabemos já todos que o dinheiro não nasce nas caixinhas multibanco e que, por esse facto, não é inesgotável. A educação tem custos e os custos que assumimos para multiplicar o número de estabelecimentos, curso e vagas universitárias foram para além do possível e (pior) do necessário – na altura o que se andava a gritar? “Não pagamos”, eu sei. A consequência da falta de reivindicação para o que é justo, sério e exequível em detrimento do delírio do “direito a tudo e mais alguma coisas” é o facto de que a factura chega sempre e a geração que a receber vai mesmo ter de a pagar – entende caro Renato Teixeira?

No Futuro, goste-se ou não, a necessidade financeira e a necessidade de evolução do sistema de ensino (infelizmente forçada pela primeira e não pela importância da segunda) levará ao encerramento de Universidades/Politécnicos e de cursos que são clamante excedentes e exagerados para as necessidades de um país com a dimensão do nosso. Assim como cada Universidade caminhará para uma especialização da sua oferta formativa em contraponto com a multiplicação actual – isto de haver o mesmo curso (em Universidades públicas) a menos de 30 km de distância é um absurdo só explicável por uma qualquer variável insana – tal como acontece nos países mais desenvolvidos. Também os horários terão de ser ajustados para que seja possível aos alunos estudarem e trabalharem ao mesmo tempo – aulas só à tarde ou só de manha – uma prática comum em países como os EUA, Canadá, Holanda… que permite aos alunos gerarem algum do seu próprio rendimento, diminuindo o encargo das famílias e aumentado a sua experiência (mesmo que fora da sua área).

Este é o debate que está em cima da mesa e que as academias podiam e deviam liderar. Mas eu entendo: qual é a academia que, mesmo com os dados todos “escarrapachados”, viria a defender o fecho da sua própria Universidade? Era preciso ter muito da tal “liberdade de espírito”. Assim não sendo o debate será novamente levado a cabo por outras entidades e a decisão passará novamente ao lado daqueles que a terão de acatar. Por culpa de quem manda? Não. Por culpa de quem continua como em 1990 a reivindicar “mais e mais”, ignorando herculeamente a realidade à sua volta e tomando a opção de ficar fora dessa mesma discussão.

Pedro Brilhante

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