A “tecnificação” dos políticos

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o longo da história os políticos foram vistos como bons falantes, bons a argumentar, bons a “malhar” nos adversários, bons a transmitir esperança e rosas quando deveriam transmitir números e doses de realidade. Mas, a política é também isso (ou é muito isso), mais do que a arte de direcção, organização ou governação, é também a arte de timonar um povo dando-lhe esperança, fazendo-o acreditar num futuro melhor e, claro está, temperar com uma dose recomendável de carisma. E, para esta visão de fazer política, os locais predilectos para singrar são os fóruns políticos, os debates, as declarações públicas, etc. Num patamar nacional, a Assembleia da República, como casa mãe da democracia.

É natural que aqueles que no seu percurso de vida conviveram de perto com a política tenham um gosto e uma apetência muito maior para assumir esta postura política mais clássica. Ao invés daqueles que no seu percurso de vida estiveram mais alheados do mundo da política, e são chamados a ela por serem grandes técnicos da sua área, mas dos quais só se espera que sejam bons “directores de especialidade” e não bons “directores gerais”.

O que não se espera de um político de carreira é que aquando eleito se envolva tanto nas matérias que tem a seu cargo, e descure aquilo que lhe deu alma e aquilo com que tanto sonhou, fazer política pura e dura. Passos Coelho é um produto da política, da JSD e do PSD, não chegou a primeiro-ministro pela sua carreira académica e/ou profissional, mas sim pela carreira política. Porém, hoje quando o ouvimos a prestar esclarecimentos aos deputados na Assembleia da República – palco por excelência para brilhar – percebemos que o que ali vai fazer não é prioritário para si, arrisco a dizer, que só lá vai porque tem de ir! Com certeza não é por desprimor para com a democracia, é porque na cabeça dele o mais importante é estudar todos os dossiers, todos os assuntos da governação do país, é dar o “litro” na direcção do governo para que se alcance o melhor.

Louvo-lhe a atitude de preocupação e de dedicação ao estudo do “coração” dos assuntos, mas entendo que não deve descurar a arte de fazer política, não deve cair na tentação de querer ser um óptimo técnico e esquecer-se de que é político. Debater, argumentar, mostrar que é melhor, convencer, dar esperança, abrir horizontes são também obrigações que lhe assistem.

Do outro lado, do PS do Costa, temos a política clássica a todo o vapor, a mais eficaz para ganhar eleições, mas também a mesma que foi tomada em doses excessivas nestes 40 e que nos trouxe aqui. Costa já mostrou desconhecer os dossiers, com a “calinada” que mandou sobre a execução dos fundos comunitários, mas qual é o espanto, vem da mesma escola do outro “é só fazer as contas”…

Dois ditados se aplicam aqui como uma luva: a virtude está no meio e nem 8 nem 80. Nos tempos exigentes que correm é fulcral os agentes políticos dominarem bem as matérias sobre a sua alçada, serem afincadamente profissionais dedicados, mas é também importante não esquecer que fazer política não é gerir uma empresa, é saber dizer no momento certo, no tom certo e para as pessoas certas “I have a dream”.

João Santos

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