A República que merecemos?

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campanha presidencial que tem marcado (pouco) a atualidade política em Portugal espelha bem o estado a que chegou a nossa República. Entre debater quantas vezes dorme cada candidato, quando, onde e como almoçam, que votos de personalidades mortas conseguiriam captar, sobra pouco tempo para falar do país.

Mas ainda assim os candidatos conseguem falar de coisas que manifestamente não são da sua competência. O cargo de PR não tem caráter executivo. Por muito que Maria de Belém de queixe das avaliações de caráter que lhe são feitas, é mesmo disso que se trata a eleição presidencial. Não faz grande diferença saber a opinião dos candidatos a PR sobre aspetos orçamentais ou sobre a Constituição. Nenhum dos assuntos é da competência da Presidência da República. Importa mesmo é saber se os candidatos pretendem ser interventivos ao estilo das Presidências Abertas do senador-mor cá do burgo ou se, por outro lado, farão mais uso da sua “magistratura de influência”, popularizada pelo atual PR (do qual certamente ainda teremos saudades).
Importa também saber até que ponto estão dispostos a manter a geringonça e como gerirão o desmantelamento da mesma. Importa saber que condições exigirão para a constituição do futuro Governo. Mas sobre isso, ninguém parece muito empenhado em falar.
A existência de um candidato de direita afincadamente empenhado em parecer de esquerda e de 5 candidatos da área do partido que lidera a geringonça (7 dos partidos que que a sustentam) são também bastante reveladoras do estado a que chegou a República. Especialmente se tivermos em conta que dois dos candidatos à segunda volta são Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém. Um que só existe graças à deriva esquerdista de um dos habituais partidos do arco da governação. É um vazio completo, que se limita a usar sounbites poéticos e que nada dizem. A outra decidiu focar a campanha em horas dormidas, almoços e nas refeições dos líderes internacionais em lares da terceira idade.
Torna-se difícil apelar ao voto neste contexto. Mas se temos a República que merecemos, talvez seja altura de fazermos por merecer mais. E o facto de nos deslocarmos às urnas é um bom princípio. Porque mesmo quando o cenário é este, há opções válidas para mostrar a nossa opinião. A abstenção não é uma delas.

Nuno Carrasqueira

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