A NOVA PIDE

[dropcap size=”500%”]V[/dropcap]ivemos tempos em que na generalidade dos assuntos da nossa vida quotidiana os valores da tolerância e respeito pela liberdade do outro se encontram em plena decadência. Somos cada vez mais egoístas, participamos menos na comunidade e a ideia de bem-comum vive apenas num mundo metafísico, intangível, muito lá para baixo na lista das nossas prioridades. Estamos hoje muito menos dispostos a sacrificar um benefício pessoal em favor do bem comum. Mas o que é o bem-comum? Não perderei tempo a procurar uma compreensão filosófica do que é o bem-comum, limitando-me a dizer que este é um conceito complexo, abordável de vários prismas, podendo para o efeito tomar a definição do Papa João XXIII: “O bem comum consiste no conjunto de todas as condições de vida social que favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana e sua sociedade.” Contudo, a ideia principal que desejo passar é que a ideia de bem-comum é essencialmente muito diferente para todos e cada um de nós, e dificilmente identificável.


Se por um lado é isso que observamos, por outro vemos que hoje a conformação da ideia de bem comum tem cada vez menos como actor único e principal o Homem, sozinho, vindo cada vez mais a ganhar espaço uma ideia de inclusão dos restantes animais, partilhando o protagonismo com o Homem. Este fenómeno é bem patente quando vemos que um partido que coloca a sua tónica na defesa dos animais (embora não se limitando a isso), e baseando a sua comunicação precisamente nessa dimensão, conseguiu eleger um deputado à Assembleia da República. Contudo, o fenómeno vai muito para além disso. No sítio de internet que nos permite criar e assinar petições públicas, entre as 10 mais votadas 4 estão relacionados com a defesa dos animais. Nas redes sociais multiplicam-se as manifestações atinentes a esta temática, tal como se multiplicam os ecos na comunicação social, sob várias formas.
Ao passar os olhos pelo programa eleitoral apresentado pelo PAN para as últimas legislativas, vemos que as primeiras páginas são dedicadas ao tópico “Medidas de protecção e bem-estar animal”, o que desde logo deixa notória ser esta a sua principal vocação, permitindo-nos concluir que foi também essa a principal razão pela qual as pessoas votaram neste partido – precisamente 75 140.
Desde já confesso que não concordo com grande parte das medidas apresentadas por este partido, e algumas chegam até a criar-me uma certa “comichão”. Não partilho também grande parte das opiniões de quem exalta pelas redes sociais uma série de ideias mais ou menos radicalizadas e que têm como fundo a defesa dos animais. Mas mais do que não concordar, a tónica mais negativa que encontro é que, por exemplo, ao ler as páginas que o PAN dedica no seu programa eleitoral para aquele tópico, as palavras-chave que nos ficam são: proibir, limitar, criminalizar. A sensação que fica ao ler-se este manifesto, e ao tomarmos conta de muita das opiniões dos seus defensores, é que o diálogo fica prejudicado face a um radicalismo forte e fracturante, à boa maneira comuno-fascista de imposição de ideias, desprovidas de debate, desprovidas de contraditório, que devem imperar só porque sim.
Tomo apenas um exemplo: foi noticiado que alguém contactou as autoridades por um cão de um vizinho ladrar insistentemente. Contudo, a razão do contacto não foi a queixa por um barulho abusivo provocado pelo animal, mas sim o temer que o facto de o animal ladrar tanto se devesse a uns eventuais maus-tratos.
Sou contra qualquer tipo de maus-tratos gratuitos a animais, especialmente os de companhia, mas será que merecem este alarmismo que vemos multiplicado? Será mesmo que eles merecem dignidade penal? Existe um ambiente pidesco no seio de muitas associações e cidadãos defensores dos animais, na minha opinião completamente injustificável e que me leva a reflectir sobre a inversão de prioridades em muitos de nós. Não quero cair na afirmação demagógica que já há quem se preocupe mais com os animais do que com o vizinho que morre de fome, mas a verdade é que já ouvi muita gente a afirmar isso mesmo.

 João Carreira

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