A hipocrisia de ser socialista

[dropcap size=”500%”]O[/dropcap] aparecimento recente das polémicas com os swaps e com o novo emprego de Maria Luís Albuquerque têm servido para encher de moralismo as bocas das esquerdas. E têm servido, por isso, para desmascarar a hipocrisia de ser socialista.

Ser socialista é, por definição, defender o poder do Estado. Defender que os
políticos devem ter um grande poder de decisão, devem poder interferir na
economia, poder conceder benefícios, decidir que projetos são estratégicos, gerir empresas, etc.
Curioso é que depois vejamos o Secretário-Geral do PCP a dizer, a propósito dos swaps, que os contribuintes não podem ser chamados a pagar os desbaratos de algumas empresas. A frase até soa bem e concordo plenamente com o princípio. É pena que seja o PCP o primeiro a defender as nacionalizações e a insurgir-se contra tudo o que é possibilidade de privatização. Não haverá nenhuma alminha que lhes explique que é exatamente por as empresas serem públicas é que os contribuintes têm de pagar os erros de gestão das mesmas?
Curiosa também é a postura da esquerda em relação à contratação de Maria Luís Albuquerque pela Arrow. Devo desde já dizer que acho imensa piada à proposta das esquerdas de proibir os Ministros de trabalhar no setor privado durante 6 anos na área que tutelaram. É engraçado. Escolhemos um Ministro porque é especialista numa área. Depois proibimo-lo de exercer nessa área (já para não falar que no caso do Primeiro-Ministro e do Ministro da Economia, suponho que o “período de nojo” se aplique a todas ou quase todas as atividades profissionais). Faz sentido. Mas avancemos. O problema é que o Ministro pode ter favorecido a empresa para o qual é contratado. Ora, mais uma vez não percebem as esquerdas que estes benefícios a esta ou àquela empresa decorrem exatamente do excesso de poder do Estado. Se o Estado não tiver poder para decidir quem apoiar, não há razões para acreditar que os políticos beneficiaram quem quer que seja. Claro que ser socialista exige uma dose de lata e hipocrisia. Mas convém não abusar.

Nuno Carrasqueira

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