A Europa é “chata”… Mas é um assunto importante.

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alar sobre Europa é chato – sejamos honestos – é aborrecido. É uma realidade (plano governativo) que poucos conhecem e os discursos vagos que sobre ela decorrem também não ajudam ao alimentar do interesse. É demasiado técnico para se ser claro e demasiado abrangente para se “filosofar” sem qualquer objectividade. Mas a verdade é que é importante, é cada vez mais importante e a pouca importância que lhe é dada é (por consequência) cada vez mais preocupante.

Mas aqui me confesso também culpado. A Europa não tem sido assunto sobre o qual me tenha debruçado muito ou pelo qual tenha nutrido grande interesse. Não se trata do facto de compreender mais ou menos ou de atribuir mais ou menos importância, trata-se de não ser para mim claro qual o caminho a trilhar no campo da identidade – leia-se, da identidade enquanto Europeu. Aqui, existem dois problemas de difícil leitura e que dificultam, não apenas a nossa ligação à Europa, mas também a nossa definição da ideia de cidadão europeu.

O primeiro está intimamente ligado às características e à história do nosso continente. A Europa, para além de ser o mais pequeno dos continentes é dos que mais países e nacionalidades alberga, ao mesmo tempo é o continente mais antigo e o que mais guerras protagonizou entre os seus povos (para além de ter sido cenário das duas guerras mundiais). Tem por isso uma história de divisões e de separação entre os seus “constituintes”, de cultivo da diferença e de multiplicidade cultural bem vincada.

O segundo está relacionado com a percepção pessoal de cada “nacionalidade”. É que cada europeu é sempre primeiro português ou inglês ou francês, etc., e só depois se considera europeu, ao contrário do que acontece (por exemplo) nos EUA em que a primeira nacionalidade e a bandeira que simboliza o orgulho nacional é a americana. Bem sei que se trata de “uniões” diferentes, mas a primeira para manter o seu caminho evolutivo terá forçosamente de caminhar para a segunda (o federalismo) e é aqui que surgem as minhas dúvidas e que se levantam algumas questões: será de facto possível criar uma Europa federal? Não no seu propósito politico – que esse é sempre passível de alteração – mas no seu propósito “patriótico” e de identidade, será que algum dia nos consideraremos primeiro europeus e depois sim, portugueses?

Olhando a nu é difícil vislumbrar um tal cenário. Somos demasiados e demasiado diferentes de país para país, na cultura, na língua, nos hábitos e (não menos importantes) na “riqueza”. Somos também assombrados por uma enorme força separatista que ainda assola a Europa, como são os casos do País Basco e o caso mais recente da Escócia. Somos também naturalmente cépticos em relação à Europa e o número dos que se assumem como tal é cada vez maior. Contudo (e por outro lado) é também evidente que a Europa trouxe um enorme avanço aos países que à União se juntaram e isso também é reconhecido pela generalidade da população. Assim como me parece evidente que a grande maioria dos cidadãos europeus se quer manter na União e existem cada vez mais países a querer aderir e a querer integrar-se nesta “aliança”.

Ora se a vontade de manter a União é praticamente unanime e a importância da mesma é cada vez maior para a vida de cada um de nós, é necessário que se comece a pensar na Europa que queremos ter e na Europa que queremos construir daqui para futuro. E esse futuro, queiramos ou não, passará por uma maior integração e (sobretudo) centralização/unificação de poderes. O que está longe de ser consensual é a forma de o fazer e o tipo de “poder” político a instalar/definir.

Por estas razões gostava que o debate para estas eleições se centrasse nestes temas e não noutros que nada contribuem para a aproximação das pessoas a tão importante debate. É preciso definir a Europa e começar desde já a fazê-lo.

Pedro Brilhante

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