A culpa morre sempre solteira

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etembro. Início das Aulas. Educação. Crato. Colocação de Professores. Caos.

Podemos resumir assim o arranque deste ano lectivo, mais uma vez com um polémico processo de colocação de professores. Ano após ano, são prejudicados os professores e as suas famílias, bem como os alunos e sua aprendizagem. Não será suficientemente importante a estabilidade familiar de milhares de docentes e o percurso académico de outros milhares de jovens estudantes? Os erros são detectados, as desculpas são endereçadas, a Oposição critica mas não melhora, o Governo não melhora e não se responsabiliza. Afinal de quem é a culpa?!

Cada um de nós que lê este texto, certamente pela afinidade pessoal, se sente “prejudicado”: porque tem um amigo / colega / familiar / cônjuge que é professor; ou porque o filho / sobrinho / afilhado não tem professor colocado em uma ou várias disciplinas.

O processo de colocação de professores tem sido, mais uma vez, muito criticado, desde que foram detectados em Setembro, erros nas listas de ordenação de candidatos da bolsa de contratação de escolas.

Entretanto foram divulgadas novas listas na sexta-feira que, após três semanas de aulas, retiraram ou transferiram os docentes das escolas. Cerca de 150 ficaram sem colocação.

Para os que ficaram agora sem trabalho, o Ministério da Educação promete a sua colocação, nomeadamente através de novos concursos de bolsa de contratação de escolas e de reserva de recrutamento, cujas listas de ordenação se comprometeu a divulgar esta semana.

Muito se fala do deficiente processo informático, da fórmula matemática errónea… terá sido o erro involuntário? Poderá ter sido propositado a fim de reduzir despesas no arranque lectivo? Afinal de quem é a culpa?!

Disse Nuno Crato em Fevereiro de 2011: “O Ministério da Educação deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que não tivesse a Educação como pertença mas tivesse a Educação como missão, uma missão reguladora muito genérica e que sobretudo promovesse a avaliação do que se está a passar”.

Muito se fala da incapacidade de Nuno Crato de executar o que pretendia, e de ter agravado o estado da Educação… Mas terá sido o ministro que introduziu os dados e elaborou o programa informático? Como será possível um professor ter uma avaliação curricular tão díspar de escola para escola? Afinal de quem é a culpa?!

Não há muito tempo os professores contratados podiam ver os seus lugares renovados, a partir do simples acordo entre os órgãos de gestão da escola e os professores. Permitia que os professores contratados desenvolvessem um trabalho de continuidade nas escolas.

No seio da crise, os prazos dos contratos começaram a encurtar, tornou-se quase impossível contratar novamente o mesmo professor e quase inevitável despedir professores em catadupa em finais de Julho. Tudo em nome da poupança, mas talvez não só. Quantos dos nossos governantes têm negócios educativos? Quantos ligados a Colégios, Escolas com contratos de Associação, ou IPSS? Afinal de quem é a culpa?!

As TEIP e algumas escolas com autonomia têm sido o mercado que permite escoar alguns dos estudantes que anualmente saem das faculdades. Mais conveniente às universidades, às escolas, aos sindicatos, ao próprio ministério, com muito mais cabeças e opiniões do que as do próprio ministro.

O interesse das escolas é poderem escolher professores mais novos, que podem ajustar de acordo com a sua necessidade de apresentarem bons números de sucesso escolar. Menos currículo, menos teoria, menos ciência, menos conhecimento aprofundado, mais conhecimento superficial, mais burocracia na avaliação, mais projetos para “entreter” os alunos e fazer marketing a favor da escola, pois convém dar aos pais algum conforto relativamente ao sucesso dos filhos.

As novas listas também não apresentam grandes alterações relativamente às primeiras. O fator decisivo são as inúmeras perguntas a que os professores responderam em que ter (ou não) trabalhado naquele tipo de escolas, é decisivo. Por isso, os mais novos continuam a ter hipóteses de passar à frente dos mais graduados.

Não que isso interesse muito, porque no final de contas o verdadeiro problema são as poucas vagas para tantos candidatos. A triste realidade é que os professores e respetivos sindicatos podem protestar ou manifestar, mas a verdade é que não há emprego para todos os professores. Mas, afinal de quem é a culpa?!

Mais que provável e aceitável a culpa ser do Ministro da Educação, Nuno Crato. Aliás, é preponderante que parte do problema está no facto do Ministério ter realizado todo este processo demasiado isolado da realidade e das necessidades do sistema. Essa é a imagem que Crato passa e inevitavelmente não resiste a ser responsabilizado diretamente por toda esta confusão. E afinal será dele a culpa?! Há quem diga que quem lançou o caos na Educação foi Cardia! Mário Sottomayor Cardia foi Ministro da Educação no I e II Governo Constitucional de Mário Soares, e provavelmente o mais odiado de sempre (talvez até aos últimos desenvolvimentos de Crato), devido à desvalorização dos diplomados mais antigos, preteridos em relação aos colegas mais jovens recém-diplomados com um grau superior obtido em menos tempo; e por causa dos Concursos para professores eventuais e provisórios, tornando mais precária a profissão. Durante muitos anos, passou a haver muito mais professores provisórios do que professores do quadro. E afinal será dele a culpa?!

A classe dos professores é hoje uma das classes mais preparada e qualificada das diversas actividades profissionais (notoriamente excluindo o currículo médico). Se há largos anos diversos professores efectivos eram bacharéis, hoje é raro encontrar um professor do Ensino Básico ou Secundário que não tenha o Mestrado ou até Doutoramento, quer em Ciências da Educação, quer nas áreas vocacionais.

Se há largos anos, a classe dos professores era a mais querida da população, é hoje desprezada pelas manobras divisionistas das políticas educativas. Não falamos de decisões do Partido A ou B, ou do Ministro Zé ou Manel. São sucessivos processos e alterações na área da Educação que nos fazem caminhar para uma enorme desacreditação da escola pública. E acreditem que a culpa é de todos nós…

(Este texto não foi, propositadamente, escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico)

Celso Casinha

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