A culpa é do Facebook

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sabel Jonet presenteou-nos esta semana com uma brilhante dedução: os desempregados passam demasiado tempo no Facebook em vez de procurarem emprego. Já hoje, fomos alarmados durante 5 minutos, em pleno Telejornal da RTP (o qual supostamente dá notícias), para o facto de haver crianças e jovens a adormecer nas salas de aula porque passam demasiado tempo no Facebook, em vez de terem as suas indispensáveis horas de sono.

Coitado do Facebook!

Certamente apenas desde que há Facebook (ou internet e redes sociais afins) é que temos desempregados que não procuram emprego, porque são preguiçosos, ou que temos alunos que adormecem durante as aulas, simplesmente porque se estão a borrifar para elas.

Logo, a correr, os nossos média (hoje não vou perder muito tempo a tentar perceber o porquê) acorrem a ouvir “especialistas”, vaticinadores de mil e uma síndromes, doenças e cataclismos causados pelos facebooks. De repente todos somos especialistas na matéria, fazem-se fóruns, conferências e editam-se livros.

Podemos, sinteticamente, verificar um certo procedimento comum:

1- Alguém se lembra que existe um “problema” muito grave e fabrica uma tese.

2- Os média dão eco, ouvem “especialistas” e alarmam.

3- O assunto é altamente extrapolado.

4- Os “problemas” com mais audiência acabam “resolvidos” numa lei qualquer.

5- Nada muda.

Todo este fenómeno de a-culpa-é-do-facebook é bastante mais amplo e transversal, aplicando-se aos mais variados sectores e assuntos, não afectando apenas o mais comum dos portugueses, mas alastrando-se também até aos corredores da AR e aos chamados opinion makers.

Um destes casos é o que observamos no seguimento à publicação de um dado ou indicador estatístico, seja ele referente a taxas de juros da dívida, taxas de desemprego ou de emprego, etc. Os responsáveis políticos e opinion makers apressam-se a comentar, criar teses e editar livros. Surgem mil e uma opiniões contrárias, muitas vezes vindas da mesma pessoa, em tempos distintos, mas nem por isso muito distantes (os Galambas desta vida). Cada um fabrica a sua maré, nem que seja preciso chegar-se ao ridículo de proferir uma afirmação como a seguinte: “não temos razão nenhuma para acreditar nos dados do Banco de Portugal”.

É evidente que um dado estatístico, como os acima enunciados, carecem de uma contextualização, de se saber quais os factos que lhe deram origem, até, muitas vezes, de uma explicação. Contudo, tal não significa um atribuir de carta-branca para assistirmos ao digladiar entre posições ou opiniões assentes em meias verdades, com objectivos ocultos (político-partidários).

O exemplo vem de cima, por isso, a culpa é sempre do Facebook.

João Carreira

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