A crise explicada a crianças

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omo ainda há por aí muito boa gente – atrever-me-ia a dizer a maioria dos portugueses – que ainda não percebeu as origens da crise e como chegamos a este ponto, e acha que este é só um capricho masoquista do governo em aplicar esta política de austeridade, vou tentar explicar com números (redondos para não complicar), como explicaria a uma criança.

Em praticamente 50 anos – sim 50, porque o endividamento começou sensivelmente nos anos 60 com a guerra colonial –, com o seu auge entre 2005 e 2011 (em que praticamente endividámo-nos tanto como nas outras décadas todas juntas), gastámos todos os anos mais do que a riqueza que criámos.

Imaginemos agora, por exemplo, por etapas, devagarinho:

1 – Portugal arrecadou durante 50 anos, todos os anos, 100. Com a receita dos impostos e tudo o resto onde o Estado vai buscar dinheiro, vamos imaginar que, arrecadou 100 por ano.

2 – Para os gastos do país precisávamos todos os anos de 110. Para pagar os serviços públicos, os ordenados, as pensões, a saúde, a educação, etc.

3 – Durante 50 gastamos anualmente mais 10 do aquilo que recebíamos. 110-100=10.

4 – Durante 50 anos recorremos ao crédito para pagar esses 10 a mais, por ano. Quando se recorre ao crédito para além de se ter de devolver o que foi emprestado, ainda se tem de pagar juros.

5 – Se não tivéssemos saldado nenhuma desta dívida nestes 50 anos, estaríamos agora com uma dívida de 10 x 50=500 + juros. Mas, é evidente que abatemos alguma desta dívida, logo, vamos supor, que passados 50 anos temos hoje uma dívida com juros acumulados de, por exemplo, 400.

6 – Porém, passados 50 anos aqueles que nos emprestavam dinheiro chegaram à conclusão que já estávamos a abusar e decidiram fechar a torneira. E disseram: ou vocês passam a viver com menos, ou não cai nem mais uma gota.

7 – Assim sendo, hoje, temos em primeiro lugar de reajustar o nosso país para que deixemos de gastar 110 quando só realizamos 100. Logo, o primeiro esforço pedido aos portugueses é que tentemos caminhar para uma despesa ajustada à riqueza que criámos. Deixar de gastar 110 e gastar só 100, ou menos!

8 – Mas, esse esforço não chega. Não chega porque para além de termos de reduzir os custos com cada ano de actividade do Estado, temos ainda de pagar a dívida que até aqui criámos (os tais 400 lá de trás). O segundo esforço é para que consigamos caminhar no sentido de virmos a ter superavit orçamental (saldo positivo no fim do exercício orçamental de cada ano), só se conseguindo isso com a redução da despesa.

9 – Não pagar a dívida não é solução, porque estaríamos a assinar a nossa certidão de pobreza ad eternum, já que numa primeira fase precisaremos sempre de recorrer ao crédito para sobreviver. Além do mais, o país não pagar significaria o fim do crédito não só para o Estado, mas por arrasto para empresas e os cidadãos – colapsando assim a economia.

10 – E, sim, os cortes não podem fugir muito àqueles que têm sido aplicados. Já que a despesa anual do Orçamento do Estado é 2/3 dedicada a prestações sociais, saúde e educação. Cfr. http://www.portugal.gov.pt/media/1348545/orcamento%20cidadao.pdf, p.21.

Espero que tenha ajudado à compreensão.

*Publicado também no blog dextram.blogs.sapo.pt

João Santos

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